domingo, 24 de julho de 2016

CLAUFE RODRIGUES

O Poeta e o Jornalista em um só Corpo

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

A palavra é o elo que une esse ser seja no competente jornalismo que realiza ou na criativa poesia que produz. Claufe Rodrigues tem no universo das letras o seu mundo.


Em que momento da tua vida te veio a certeza de que você seria um jornalista?

Foi quando eu percebi que de poesia eu não conseguiria viver. Então veio a época do vestibular e, pesquisando as carreiras universitárias, vi que Jornalismo tinha currículo menos específico do que, por exemplo, Letras. Vi que me tornar um “especialista em assuntos gerais” – na feliz definição de Décio Pignatari – era o melhor caminho para viver de escrever.

Na tua profissão qual é a tua maior realização com a notícia?

Rapaz, já fiz tanta coisa... Programas, séries, especiais, documentários... Poderia citar a direção de um especial sobre o Riocentro para o Globo Repórter, pelo qual ganhei com a equipe o prêmio Wladimir Herzog, as séries documentais sobre Fernando Pessoa, Machado de Assis, Euclides da Cunha, todas as matérias sobre Jorge de Lima, as entrevistas com Eduardo Galeano, Pepetela, Vargas Llosa, António Lobo Antunes, José Saramago, Eugénio de Andrade e agora, na Flip, com Svetlana Alexiévitch. Teve ainda o Palavrão, primeiro programa da TV brasileira especialmente dedicada à poesia, enfim... Possivelmente estou esquecendo algo muito importante – sim! O especial que fiz no Benim sobre os retornados brasileiros, ex-escravos que retornaram à África.

Qual a tua opinião sobre o futuro do jornal impresso?

Acho que hoje tudo é uma grande novidade, mas, quando a poeira baixar, vamos ver o que vai ser varrido do mapa. Aliás, se fôssemos projetar hoje o futuro do próprio jornalismo, os prognósticos seriam péssimos. Mas creio que, passada a onda virtual, ganharemos novos suportes para o ofício, sem perder os que já existem.

 Em você o jornalista e o poeta são seres distintos, ou em algum momento essas duas escolhas se entrelaçam em sua vida?

Para mim é tudo junto e separado ao mesmo tempo. Sou um só ser que se manifesta através de várias formas de expressão. Cada uma delas demanda uma linguagem específica, que pode eventualmente ser transgredida. Mas o certo é que quando faço poesia, é poesia mesmo; quando escrevo matérias jornalísticas, evito o texto “poético”. Por outro lado, é inegável que o poeta e o jornalista se retroalimentam e me dão uma identidade única tanto numa como noutra função.

Você participou de muitos grupos como, Bandidos do Céu, Bazar do Baratos, Madame Suzi, Os Camaleões, Ver o Verso. Qual a importância desses grupos em tua jornada poética?

Ter um grupo de poesia era muito importante numa determinada época. Para mim, significavam a possibilidade de me lançar em bases firmes e abrangentes, sem me expor tanto, e de divulgar a poesia para um público bem maior.

Nessas três décadas dedicadas a poesia o que mais lhe realizou?

Não saberia dizer. Tenho onze livros, fiz uma enciclopédia sobre a poesia brasileira no século XX, organizei um sem-número de eventos literários, tive grupos importantes como Os Camaleões e o Ver o verso, ajudei um monte de gente a encontrar seus caminhos na poesia, conquistei muitos amigos, faço um programa sobre literatura, expandi as fronteiras da minha poesia para a prosa e a música e continuo em frente, querendo realizar cada vez mais.

Fala um pouco do programa que você apresenta, Palavrão Literatura, e quais os resultados obtidos com esse evento?

O Palavrão é um laboratório de arte, em que convidamos artistas de várias áreas (mas todos ligados ao livro e à literatura) e desenvolvemos nossas próprias habilidades, especialmente na música. Sobretudo, é um movimento de resistência à pobreza do lepo-lepo em que se tornou nosso meio cultural.

O que você ainda não fez como jornalista e como poeta, mas que pretende realizar?


Tudo: discos, livros de poesia, romances, shows, eventos, filmes... Você só não me verá nunca fazendo teatro ou artes plásticas – não tenho a menor habilidade nesses ofícios.




domingo, 17 de julho de 2016

TOQUINHO

Um estimado compositor e interprete de nossa música

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Antonio Pecci Filho, no último dia seis de julho neste ano de 2016, fez 70 anos. Parceiro, amigo e irmão musical de um dos maiores poetas do mundo, Vinicíus de Moraes, diz "Aproveitei Vinicius até o fim", porque moravam juntos e estava no momento da morte do eterno parceiro. Cantor de uma carreira universal, faz sucesso nos quatro cantos do mundo. Suas canções nos remetem de imediato a importância de nossa MPB. O apelido foi dado pela mãe, começou cedo aos 14 anos já tinha aulas de violão com Paulinho Nogueira, e em 1970, compôs, com Jorge Bem Jor, seu primeiro grande sucesso, “Que Maravilha”. O papo de hoje é com o querido da Música popular Brasileira, Toquinho.


Toquinho, nessas suas viagens, você sente alguma variação de público de um lugar para outro?

Mais ou menos porque hoje tem uma abrangência grande de público por todo meu lado infantil, então tem umas gerações ai que deveriam estar com minhas músicas e estão porque cresceram com a música infantil e a música infantil puxa todo outro repertório então todas as gerações eu abranjo hoje. Desde os pequenos que cantam canções infantis até os que cresceram com essas canções que hoje tem 40, 45 anos. Imagine uma pessoa que tem 40 anos não viu Vinícius de Moraes cantar então você vê quanto tempo já passou “Aquarela” foi feita há 30, 31 anos, então você vê que tem uma geração toda que cresceu com minha música que taí hoje já adultos com filho e os filhos ouvindo as canções. Então tem uma coisa muito homogenia assim no Brasil é um público de toda idade mesmo não tem isso de pessoas mais velhas até as pessoas de meia idade. Por isso que te falei, e os filhos delas estão crescendo e acompanhando o meu repertório. Com internet hoje tudo fica mais fácil. Né?

Na sua carreira o que mais lhe marcou ao longo desses 50 anos?
 
Olha sempre defini minha carreira como estou fazendo hoje, você viu eu tocar aqui e ficaria tocando até a hora do show, isso é que faz a diferença, gosto de tocar eu gosto de cantar, gosto de tocar com músicos excelente como Proveta, como Anna Setton que é uma grande cantora. Sinto prazer nisso, não estou aqui como sacrifício. Estou aqui por prazer de tocar. Nem poderia, que dizer, estou quase de férias mas o Ronald é meu amigo, me convidou, é um lugar que eu nem faria em geral mas eu vim fazer por carinho mesmo e por vontade de tocar. Então trilhei minha vida fazendo o que eu quis, entendeu, e tem assim momentos de grandes públicos. Tive quatro momentos de grandes públicos um foi na Bahia, final de ano, no Farol da Barra quatrocentas mil pessoas, depois em Roma com trezentas e cinquenta mil pessoas,  na Vila Burguês lá em cima, agora no final do ano em São Paulo tinham dois milhões de pessoas na Paulista. São momentos que realmente marcam, assim né, de você ver aquele público todo na sua frente. Mas coisas assim negativas nenhuma. Eu me lembro só de coisas muito boas de parcerias de curtições assim como você está vendo a gente fazer aqui. Isso que estou fazendo com ele fazia com Vinícius. Fiz com Tom e com grandes artistas. Então minha vida foi trabalhada mesmo por momentos favoráveis, não tenho nada de ruim para falar e as coisas grandiosas foram a quantidade de público porque gosto de fazer show aqui, como num lugar para trinta, quarenta mil pessoas.

Você foi parceiro, mais do que isso, amigo de um dos maiores poetas do mudo, Vinícius de Moraes, entre as tuas parcerias com ele tem alguma predileta?

Sempre tem alguma né, ai tem muitas no lance. Como numa cor, tem vários tipos de azul, vários tipos de verdes. Tem uma que eu gosto muito de cantar “Tarde em Itapuã” é uma canção que fica nova sempre que a gente canta. É bonita, o músico gosta, o instrumentista exigente toca, a pessoa da família gosta. As gerações passam ou vem e ela tem uma magia. Outras como “Regra Três”, foi uma canção que marcou muito. Outras músicas que eu fiz com ele. Bom, o Vinicius foi um grande poeta uma pessoa fantástica e eu convivi com ele e fui um grande privilegiado. Tive muita sorte nesse sentido de conviver com ele de uma forma tão íntima e ter aproveitado isso de uma maneira tão honesta, tão direita e ficou muita coisa boa. Fizemos o que podemos fazer em dez anos de parceria foi um fecho maravilhoso. A morte dele encerrou uma parceria e foi tirada o máximo possível dela.

Vinicius de Moraes e toquinho

Outro nome da nossa música que você foi amigo, tocou com ela, foi Nara Leão. Eu queria que você contasse para a gente o que foi essa cantora para a Música Popular Brasileira? 

Nara Leão foi importantíssima para música brasileira. Foi talvez uma das interpretes mais importantes que nós tivemos. Ela foi muito bem orientada, sempre se cercou de pessoas importantes e pessoas que sabiam bastante. O Carlos Lyra foi um grande orientador dela. O próprio Vinícius, enfim, Edu Lobo, Dori Caymmi. Ela trouxe para música brasileira o morro, e isso não é brincadeira. Ela trouxe Zé Keti para a música brasileira. A Bossa Nova era um movimento preconceituoso, e ela era a musa da bossa porque tinha um radar.  Trouxe o Chico Buarque para a música, foi a primeira a gravar o Chico Buarque. Ela detectava as pessoas, gravou Sidney Miller, Paulinho da Viola. Trouxe o show “Opinião”, o “Pobre menina rica”, que ela fez com Carlos Lyra, Foi talvez a cantora mais importante da música brasileira não no sentido técnico vocal mas no sentido de visão no comportamento musical ela trouxe as pessoas certas para a música brasileira e rompeu com os preconceitos que a Bossa nova tinha. Junto com Carlos Lyra. Nara teve essa importância enorme de detectar os valores que estavam surgindo emergentes e ter coragem de assumir esses valores então essa é a grande importância da Nara Leão.

Toquinho, Nara leão e Wilson Simonal

Você tem muitos sucessos. Acho que a Música Popular Brasileira tem em Toquinho um dos principais compositores e interpretes. Mas um sucesso teu que eu tenho a certeza que agrada de um ano a cem anos de idade, é “Aquarela”. Queria que você contasse para a gente como foi a história de “Aquarela”, como foi que ela surgiu?

“Aquarela” é um mistério, que musicalmente tem uma emoção nela que abrange tudo, a criatividade da criança, a emoção do adulto, o fatalismo da vida. Tudo de uma forma meio lúdica colocada na música, é um mistério. Teria tudo para não fazer sucesso, ela é longa tem uma letra enorme não tem refrão que as pessoas cantam. É só uma canção. Tem uma magia nela. Certos sucessos que a gente não pode explicar, esse é um deles. Depois que de feita, foi um grande sucesso na Itália eu não ia gravar no Brasil. Achei que não ia acontecer nada nessa música, acho que teve uma empatia com o público italiano. Quando gravei aqui ia colocar ela na última música do disco. Aí o pessoal do estúdio começou a chamar outras pessoas quando estava colocando voz, o pessoal ficou ouvindo no estúdio quando eu acabei de fazer, os caras falaram: “Meu Deus que musica é essa!”.  Falei: “Vocês gostaram?” Responderam: “Nossa! Essa música é linda”. Falei: “Mas que estranho, vocês gostaram mesmo”. Comecei a ver que ela tinha alguma coisa. Quando acabei, chamavam as pessoas para ouvir no estúdio. Vi que tinha uma força. O disco chamou “Aquarela” e foi uma surpresa para mim, o grande sucesso que  fez em todos os países. Agora eu repito para você, tem certos sucessos e certas coisas que acontecem com a arte que não tem muitas explicações “Aquarela”, é uma delas.

Disco "Aquarela".

Para terminar como é que você analisa a música popular brasileira hoje?

A Música Popular Brasileira é riquíssima, tem tudo, tem as coisas, todos os tipos de ritmo. Os compositores da minha geração tão aí heroicamente fazendo canções ainda cantando. Já com setenta anos de idade todos ai brilhando ainda: Gil, Caetano, Djavan, Chico Buarque, Paulinho da Viola. O próprio aqui que vos fala. A música brasileira é muito rica, minha geração foi muito forte e continua crescendo com todas influencias que tem do mundo todo. Com a internet tudo taí, viva. Principalmente fora do Brasil e a música brasileira  é rica, tem sertanejo bom, tem rock bom, tem MPB boa, tem sambista bom, tem axé bom e a gente tem que curtir tudo em cada momento no momento de cada gênero.