domingo, 29 de maio de 2016

SYLVIO BACK

Quando a criação e prazerosa

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Na vida ele trata do aqui e agora, faz um cinema que desconfia e em seus filmes encontra um passado munido de memória. Sylvio Back tem os filmes que faz como uma família.


 O oficio de se fazer cinema é prazeroso?

Toda imersão moral e existencial na criação é tão prazerosa (a palavra é excelente!) quanto a consumação física e psicológica do ato sexual. Não à toa que, quando damos um poema, roteiro por terminado ou assistimos à primeira cópia do filme, quando abrimos livro recém-publicado ou ouvimos a gravação inaugural de uma música, etc., bate uma lassidão idêntica a que sentimos pós-coito... Como se adentrássemos num universo onírico que parecia inalcançável, e que, já é, está aí, é todo seu! Para o bem e para o mal...

O resgate do passado remoto e recente se faz necessário no cinema?

Talvez o que de pronto possa lhe responder é que na vida trato do aqui e agora, apenas de olho no futuro imediato. Nos filmes, sim, reenceno o passado munido da memória, que é a melhor cineasta de todas, pois embaralha tudo ansiando pelo foco como se nada tivesse mudado. A dinâmica do pretérito é a força motriz para desvendar o desconhecido com os enganos de sempre.
Sim, apraz-me borrar as fronteiras entre documentário e ficção. Daí eu investir no chamado docudrama, uma espécie de antidoc, pois naquilo que o documental não dá conta, o imaginário como que vem em socorro, e ambos se irmanam feito siameses. Depois, como saber o que é um ou é outro quando submetidos à voragem da linguagem e dos cortes cinematográficos, uma invenção da modernidade que subverteu todos os códigos de leitura do real até então conhecidos. Todo filme é uma viagem ao tempo. Da iluminura mental que desencadeia sua realização a imagens editadas faiscando na tela, há todo um périplo criador que ora avança a ideia original, ora a deteriora, quando não a inverte ou deleta, pura e simplesmente. É que não consigo vislumbrar diferença entre ficção e documental. Quando homens e seus feitos surgem na tela, tudo vira recordação (acordes do coração?), reitero, como saber onde começa uma e termina o outro? Tanto é que na ficção ou nos "docudramas", o passado recente e o remoto sofrem tamanha atualização imagética, fruto de uma voraz bricolagem (ressignificação icônica e irônica de filmes de arquivo), a ponto de conturbar o espectador. Adoro deixar a plateia órfã, sem corrimão de qualquer natureza política, ideológica ou moral, creditando a ela a conclusão da narrativa que o filme deixou em aberto. Portanto, é um privilégio poder estabelecer esse diálogo livre, de mão dupla, com quem o assiste, ora conflagrando a história oficial, como em "República Guarani", "Revolução de 30" ou "Rádio Auriverde", ora resgatando a angústia de personagens e temáticas ambíguas, como em "Lost Zweig", "Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro", "O Contestado - Restos Mortais", ou "Aleluia, Gretchen". Em síntese, no futuro, gostaria que quando minha obra fosse lembrada que se dissesse que cada filme do Sylvio Back foi feito por um diretor diferente.

Com 76 prêmios nacionais e internacionais como você analisa o reconhecimento de sua arte em todo o mundo?

Por trafegar com destemor pela história do Brasil, um dos eixos da minha obra, nitidamente de viés anti nacionalista, dá para imaginar que a polêmica tem se grudado em muitos títulos, ainda que polêmica, é truísmo, não é algo que se premedita. De qualquer forma, nessa filmografia de pegada libertária, avessa ao coro dos satisfeitos, inevitável que sempre acabe subsistindo uma incompreensão, muitas vezes holística, ainda que nenhum filme duble o anterior ou volte a investir no que deu certo. Essa marca registrada tem selo e reconhecimento internacionais. Não por acaso detenho esta fieira de quase oitenta prêmios, inúmeros do mundo afora. Assim, de cabeça, tenho pra mim que quase todos meus filmes têm passaporte carimbado!

Com cinco décadas como diretor, roteirista, produtor e escritor. Algum projeto ainda não realizado no mundo da sétima arte?

Há alguns anos, resolvi só comemorar aniversário quando estivesse com obra concluída! Assim, sinto-me em plenos 38 anos (!), já que “O Universo Graciliano”, agora em DVD, é o meu rebento mais recente nessa contabilidade biográfica. Como a madrastice financeira voa randômicamente sobre o cinema de autor no país, há que inventar projetos que já nasçam longevos! Em tom de boutade, repito o mantra de que é preciso viver cento e cinquenta anos para formatar uma obra no Brasil tantos os percalços entre um filme e outro, quando há outro no horizonte... No entanto, confesso que, feito os artistas medievos de múltipla expertise, circulo por nichos afins da criação, da escrita e publicação de roteiros(dez na estante), livros de poesia (nove, com o recente “Quermesse”, de versos eróticos), a ensaios e artigos na grande mídia, a cesta de projetos é desfrutável, porém me reservo de não enunciá-los para que não se perca seu ineditismo... A acrescentar segmento em que, pela primeira vez, me vejo integrado de corpo e alma: a defesa dos direitos autorais do diretor de cinema e do audiovisual. É incontornável, sem diretor não tem filme, novela, minissérie, documentário ou animação! Com esse mote, cineastas de todas pegadas, de filmes pop a filmes cabeça, criamos há um ano a DBCA – Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual, entidade apoiada por dezenas de congêneres da América Latina e da Europa, dedicada à arrecadação e distribuição de direitos autorais de todo audiovisual com nossa assinatura que tenha comunicação pública em qualquer  plataforma analógica ou digital. Uma verdadeira revolução no audiovisual brasileiro! Cineasta (hoje já somos 200 filiados) ou não, quem estiver a fim de conhecer a DBCA, para a qual fui honrosamente eleito presidente, por favor, consulte nosso saite. http://www.diretoresbrasil.org/

O que te seduz no universo Graciliano?

A ideia fundadora de biografar Graciliano Ramos no cinema nasceu por acaso (o acaso preside a criação!) no começo da década passada. E foi quase simultânea às pesquisas literárias e de campo em Maceió e no Agreste alagoano para a escritura do roteiro de “A Angústia”, baseado no seu romance “Angústia” que, infelizmente, não vai mais ser filmado por mim, pois os herdeiros se recusaram a renovar os direitos do livro. Por uma feliz coincidência, eu já havia feito um documentário pioneiro em 1995 precedendo a realização do meu longa-metragem, “Lost Zweig” (2003), ao filmar o premiado “Zweig: A Morte em Cena”, produzido pela TV alemã. Pensei no mesmo procedimento quando decidi filmar “O Universo Graciliano”. E, novamente, a intuição me premiou e me salvou, justamente, porque Graciliano Ramos é um personagem que extrapola em todos os sentidos qualquer redução. Assim, acabei me sentindo quites com ele ao ir às origens e ao périplo existencial, literário, moral e ideológico do meu herói. Do nascimento (em Quebrangulo/AL e meninice em Buíque/PE, a comerciário, romancista e homem público (prefeito de Palmeira dos Índios), até sua inusitada prisão em Maceió, deportação e prisão em 1936 (“Emigraram-me”, relembra Lêdo Ivo [1924-2012] em sua última entrevista), a permanência e morte no Rio de Janeiro, seu cotidiano é encimado por tragédias e polêmicas. Munido desse manancial, “O Universo Graciliano” intenta transmitir um sentimento que foi me conflagrando já quando estudava sua obra e relatos sobre o autor, até a oitiva de uma vintena de pessoas, direta ou indiretamente, vinculada a ele. E isso fica explícito ao se ouvir quem o frequentou durante décadas como pessoa, ou, por osmose, quem tenha se apaixonado, principalmente, pelos personagens seminais de “São Bernardo”, “Angústia” e “Vidas Secas”. É por essa senda que “O Universo Graciliano” se imiscui na tentativa de vasculhar rastros, sombras e escombros memoriais, onde verdades e mentiras se embaralham, sobre a maior esfinge da literatura brasileira. O filme tem várias “estrelas”, se assim eu pudesse chamar estes meus lindos entrevistados, com idade média entre 85/90 anos, que tiveram íntima convivência com o “Velho Graça”. Todos, no entanto, conseguem capturar-lhe a mitologia, sem meias palavras, com uma lucidez, recordações e coragem assombrosas. Confluem para o arcabouço investigativo e rememorativo do documentário, dentre outros, laivos familiares da filha de Graciliano, Luiza Amado; os bem-humorados e ácidos comentários do poeta e romancista, Lêdo Ivo; o aguçado senso crítico do seu confidente, o advogado e filósofo, Paulo Mercadante (1923-2013); a percuciente definição de como o escritor encarava seu ofício, pela outra filha, Clara Ramos (1932-1993); a emocionante canção entoada por Beatriz Ryff (1909-2012); e o saboroso relato do historiador Ivan Barros, de Palmeira dos Índios. A propósito, não poderia deixar de lamentar, reverenciando-os aqui, o desaparecimento, no decorrer dos últimos anos entre as filmagens e a finalização do filme, de algumas personalidades que, cujos intimoratos testemunhos, hoje, únicos e irrepetíveis, graças à magia do cinema, tornaram-se, digamos assim, transcendentais.   

“Cinemateca Sylvio Back”, com a materialização desse projeto que disponibiliza a sua obra, o que mais lhe realizou?

Como meus filmes são minha família, dá para inferir que cada título é como filho, e como preferir um ao outro, hein? Todos traem em seus fotogramas e frames os mesmos sacrifícios, alegrias, expectativas, tristezas e glórias, umas vãs e outras, também! Entre as alvíssaras a celebrar, no entanto, é que nestes tempos de crise do mercado, o lançamento da "Cinemateca Sylvio Back" é um luxo à toda prova! Aliás, não é de hoje que a Distribuidora Versátil de São Paulo aposta na minha obra, cujo Vol. I, lançado anos atrás e esgotado, estava a exigir uma segunda fornada. Então, resolvemos aguardar a estreia nacional em cinemas de "O Universo Graciliano" para, juntamente com mais cinco longas inéditos em DVD, juntar no Vol. II, e assim oferecer ao mercado todos meus doze longas-metragens. Sinto-me orgulhoso e recompensado de poder disponibilizar ao público esses filmes de pegada absolutamente independente, seja a ficção desalinhada à narrativa de consumo televisivo, sejam os antidocumentários na contramão da febre de docs "chapa branca" e hagiográficos. Um cinema moral, como escreve a crítica Solange Stecz, autora do meu verbete na Enciclopédia do Cinema Brasileiro, que vem imprimindo sua marca registrada há quase cinquenta anos, desde "Lance Maior" em 1968, minha estreia na direção de longas-metragens. Portanto, filhos, sejam bem vindos!

Você afirmou: “Faço um cinema que desconfia”.  Até onde suas paixões interferem em seu cinema?

(aqui, Cássio, tomei a liberdade de juntar as perguntas...)

O futuro espectador em algum momento chega a influenciar você na elaboração de um filme?

Essa feliz epifania sobre o significado de minha obra devo ao crítico e escritor Carlos Alberto Mattos. Sim, ele foi na jugular das minhas atenções, intenções e pretensões morais, existenciais e estéticas, tanto quando filmo, como quando promovo colagens/bricolagens com obra de terceiros nos chamados “docudramas”. Jamais filmei flertando com o público, a mídia ou a crítica. Embora eles sejam, ora direis, a razão do meu cinema, procuro antes que tudo, como seu primeiro espectador, não levar ninguém pelas mãos, mas ser fiel a mim mesmo, insubmisso a ideários servis e a estéticas de plantão. Nessa atitude instintivamente polêmica (que me define desde a juventude!), talvez resida aí alguma dificuldade, não por acaso, de uma historiografia de corte unívoco do cinema brasileiro, em reconhecer a incontornável estética e ética da minha obra, cuja pertinência é inoxidável se comparada ao que se tem produzido nos últimos cinquenta anos. Essa solidão só dá consistência a esse projeto absolutamente pessoal. É um conjunto que reflete a coerência de uma filmografia que, formatada com inescapáveis laivos autobiográficos dentro de circunstâncias adversas com que se produz no país, acaba revelando um candente olhar humanista e poético sobre personagens e temas muitas vezes excluídos, quando não, perdedores tout cour! Dessa forma, a edição dos dois packs desta "Cinemateca Sylvio Back", cujo titulo se remete, justamente, a um estilo desconcertante que mescla ficção, filmagem ao vivo e material de arquivo através de uma narrativa equidistante das paixões de seu tempo. Postura que, talvez (a incompreensão faz parte da obra de arte!), permita às novas gerações conferir o azimute histórico, político e social de um cinema engajado com o imaginário do espectador. 




domingo, 22 de maio de 2016

BRENDA LÍGIA

Quando ser atriz é um ato natural

Por Cássio Cavalcante / Fotos: internet

Criança brincava de teatro, era autora, diretora produtora e tudo mais, quando ia começar o brinquedo e as luzes piscavam, seus olhos brilhavam. Hoje Brenda LÍgia é uma de nossas atrizes com atuação no teatro, cinema e televisão. Uma atriz que se faz em um misto de talento, seriedade no que faz e uma beleza que lhe deixa cheia de charme.


Uma das carreiras mais difíceis é a de atriz. O que mais a motivou prosseguir nessa jornada?

Venho do interior de Minas Gerais (Ibiá), região do extinto Quilombo do Ambrósio, no triângulo mineiro; minha família é enorme e cheia de primos. Quando criança, costumávamos brincar de teatro, encenando para a família inteira. Eu escrevia as falas de cada criança em papéis avulsos e fazia cada um decorar seu texto. Ensaiávamos com música e figurino, e até cobrávamos ingressos (em cruzeiro$... risos). Quando piscávamos as luzes para nossas apresentações, meus olhinhos brilhavam... Como eu gostava de tudo aquilo! Talvez tenha sido assim, com este encantamento despretensioso, que tudo começou. Já adolescente, comecei a estudar Teatro, em São Paulo. E as descobertas, no palco, foram realmente gratificantes! Percebi que este é meu caminho, pois, quando não estou atuando, sinto minha alma meio jururu, tadinha... É realmente uma jornada difícil, mas prazerosa.

O que te move nas interpretações de suas personagens?

Cada personagem se manifesta de maneira diferente e única. Os processos de criação também podem ser diversos... Inventa-se o modo de falar, de agir, de olhar. É riquíssimo! Atualmente estou estudando nova personagem para o curta-metragem “Causa Mortis”, de Luiz Rodrigues, e tem sido uma experiência incrível! Como é gostoso ir descobrindo as nuances de cada fala, cada pensamento, cada gesto, cada intenção da cena. É poderoso brincar de criar outra vida, abandonar-se por completo para que alguém inventado tome poder do seu corpo para se expressar numa obra artística. Para mim, é essa a magia que move minhas interpretações. Uma magia que se renova constantemente, nunca é igual, e sempre me transforma pessoal e profissionalmente.


Um dos principais instrumentos da arte que escolheu realizar é a aparência. Como você se mantem para estar bem quando se apresenta ao seu público?

Estou aprendendo a me aceitar como sou, cada vez mais. Acho que um “segredo de beleza” infalível é, sinceramente, estar feliz consigo! Perceba: quando a pessoa está contente, fica iluminada, com brilho nos olhos e alma leve. Esta receita pode ser mais saudável que malhação, tratamentos estéticos, e/ou recursos externos. Sim, parece clichê, mas a felicidade deve vir de dentro da gente! Para apresentar-se ao público, o fundamental, mesmo, é estar completamente entregue àquilo que se está fazendo. Quando atingimos este estágio, em cena, crescemos tanto que a aparência física torna-se secundária. Em primeiro lugar, obviamente, vem o talento. Os atores mais incríveis que conheço não se encaixam nos ideais de beleza padrão, vale lembrar.

Qual a história do projeto do curta “Diva”, que você participa que está fazendo sucesso em vários festivais como o I Festival de Triunfo? E nos conte ainda do Filme “Todas as cores da noite”.

“Todas as Cores da Noite” é um longa-metragem do brilhante cineasta Pedro Severien, que vem sendo exibido em diversos festivais no Brasil e nos Estados Unidos (próximas exibições no festival de Dallas, nos Estados Unidos, e na Mostra do Filme Livre de SP,RJ,MG,DF: https://www.facebook.com/todasascoresdanoite/ ). Aprendi muito com o filme do Pedro, que é, sem dúvida, o longa-metragem mais importante da minha carreira. Fala sobre violência e vazio existencial da nossa sociedade, entre outras coisas que também incomodam. “Todas as Cores da Noite” realmente me emociona; agradeço muito por esta oportunidade única.
“Diva” é um curta-metragem de Luiz Rodrigues (mesmo diretor de “Causa Mortis”, meu próximo projeto em cinema). Luiz, roteirista e diretor, tem um grande talento para o cinema; adoro trabalhar com ele. Ele tem muita confiança no meu trabalho: me ofereceu o papel de protagonista em Diva, onde dou vida a uma atriz que entra em crise no camarim, no intervalo entre dois atos teatrais. No filme, contraceno comigo mesma; é uma loucura em linguagem teatral. Gosto muito do resultado deste filme! Em breve será exibido em um dos maiores festivais de cinema da cidade. Já percorremos mais de 6 festivais de cinema, inclusive internacionais. Luiz é fera!

Como aconteceu de você, mineira, abraçar Pernambuco como lar?

Aconteceu que, há 11 anos, estava pulando carnaval em Olinda, quando dei de cara com minha alma gêmea (isso existe? –risos): era meu marido. Namoramos à distância por um tempo, eu em São Paulo, ele no Rio, e depois no Recife. Entre idas e vindas, com a maturidade da relação, resolvemos ficar juntos pra valer. E, há quase 7 anos, Pernambuco é nosso lar. Amo esta cidade, onde pulsa a arte, a cultura e o amor. Meu filho é pernambucano; meu coração está fincado nesta terra boa.


O nascimento de seu filho foi um divisor de águas em sua vida?

A chegada de um bebê na vida de uma mulher, certamente, muda tudo. Tudo mesmo. Sobretudo da forma como foi: planejado, desejado. Meu filho nasceu na água, numa piscina de plástico colorido, num parto humanizado que parecia um sonho. Nasceu nadando, o peixinho da mamãe, com os olhinhos abertos embaixo d’água. Foi forte, intenso e visceral. Acredito que nada será como antes. Aprendo todos os dias com Raul. Ele é meu norte, esse bebê... O grande companheiro da mamãe, pra toda vida. Como dizem: “ter um filho é aceitar que seu coração vai andar por fora do seu corpo a vida inteira”. Haja coração! Sou toda coração... risos.


A vida é um processo que segue, quais os novos projetos que você pode nos adiantar?

Estamos ensaiando para a gravação deste curta-metragem, “Causa Mortis”, que acontecerá no final de abril. É um filme interessantíssimo, do gênero de cinema fantástico. Acho que teremos muitas surpresas!
E, para 2016, planejo o desenvolvimento do meu próximo projeto em cinema: “Nove Meses” (título provisório), um documentário dirigido e editado por mim.
No mais, estou disponível para futuros trabalhos! Tenho certeza que esta entrevista vai me trazer boa sorte... vamos seguindo em frente, pelo amor à arte!
Muito obrigada pela oportunidade, Cássio. Abraços a todos!









domingo, 15 de maio de 2016

ANTONIO GUERREIRO

A Fotografia acima de tudo

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Desde muito cedo tem a foto como foco maior em sua trajetória. Não só fotografou as mais belas mulheres como foi casado com algumas delas. Fez capas de discos para os principais nomes de nossa MPB. Com sua arte ganhou o mundo. Enfim, para Antonio Guerreiro, fotografar é um ato natural como respirar.



O que a fotografia fez, faz e sempre fará por você?

A fotografia sempre foi a minha vida, desde garoto até os dias de hoje (68anos), comi, dormi, amei a fotografia acima de tudo, dediquei toda a minha vida a ela.

A fotografia digital tirou um pouco o glamour do mundo fotográfico?

Acredito que não, existia aquela coisa charmosa do laboratório, luz vermelha ou ocre, a palpitação se tinha dado certo, passei alguns anos fazendo isso, mas desde 1975 que nunca mais fiz laboratório, tinha que fotografar com a certeza do resultado, o laboratório era só um meio, como hoje é o computador.

Qual a fotografia que você gostaria de ter feito?

Postei no outro dia no Facebook uma foto da Elizabeth Taylor que adoraria ter feito, insiro ela aqui, primeiro pelo ineditismo da Taylor nua, segundo pela luz, e o mais importante, como eram lindos os corpos antes do advento dessa praga, o silicone.



"A foto que eu gostaria de ter feito, a de Elizabeth Taylor, infelizmente quem fez foi o Roddy McDowall, ator e fotógrafo, para ela dar de presente a Michael Todd com quem se casou aos 24 anos."

As capas dos discos de vinil eram memoráveis, você fez muitas, alguma predileta entre as suas capas de LP’s?

Acredito que tenha quase uma centena de capas de vinil, muitas da Gal desde Gal Índia, Tropical e outras, Simone, da Alcione muitas, Beth Carvalho, Baby Consuelo, Pepeu Gomes, A cor do Som, Jorge Ben, Taiguara, Gonzaguinha e por aí vai. A mais emblemática foi Gal Índia, que foi censurada pelo regime militar e aí foi vendida com um envelope preto em cima,  sempre gostei muito das da Baby, porque ela fazia junto comigo, madrugadas a dentro. Capa de vinil com o seu formato e tamanho nem se compara com as de CD, eram mil vezes mais charmosas.


“Fazendo a capa do disco de Ellis Regina, detalhe na camera, uma Mamiya formato 6x6 cm, tipo Rollei, mas trocava as lentes.”

Algum segredo para fotografar tão bem as mais belas mulheres nuas?

Primeiro amar as mulheres, segundo buscar sempre a beleza máxima de cada uma, nenhuma mulher gosta de se ver feia, sempre amei fotografia de sensualidade, nada erótico. A mulher é a mais linda coisa do mundo.

Desde do teu início na fotografia até hoje as mulheres mudaram em algum aspecto?

 Sim, como disse na foto da Taylor, conseguiram deformar os corpos femininos, com aplicações absurdas nos seios, na bunda, etc. Não acredito que um homem veja esse monte de músculos na cama e sinta algum tesão. E os corpos eram tão lindos.

Fotografar lá fora, como por exemplo na Europa tem muita diferença em fotografar no Brasil?

Trabalhei dois anos em Paris, fazendo moda para a Revista Manchete. Lá a concorrência de grandes fotógrafos é muito grande, acredito que a diferença seja principalmente no olhar classudo e chique dos europeus e das mídias para as quais trabalham.

Para terminar, um clássico, Antonio Guerreiro por Antonio Guerreiro.

Amanhã posso dizer ao príncipe do Mundo, ajoelha, senta-te e sorri, pois nós somos os senhores desse momento privilegiado que é bater uma foto e imortalizar alguém num pedaço de papel. Nessa hora tudo se passa na nossa cabeça, a fotografia é a arte de um ser solitário, por isso em vez de perguntas técnicas prefiro simplesmente quando alguém me diz: que foto maravilhosa!!!




Fotos de Antonio Guerreiro:











domingo, 1 de maio de 2016

ANTONIO TORRES

Um Cavalheiro das Artes e das Letras

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Nasceu em Junco, interior baiano, perto de Alagoinhas, a 200 km de Salvador. Na época era um lugar sem rádio e sem notícias das terras civilizadas, como cantou Luiz Gonzaga o rei do baião. Hoje, a cidade chama-se Sátiro Dias. Teve como pagamento dos primeiros direitos autorais, saborosos pratos de arroz doce na feira. Escrevia as cartas de amor para os namorados da cidade, e se colocava no lugar dos apaixonados para as missivas encantar mais nas promessas que continham. Foram suas primeiras ficções. Foi jornalista em Salvador, jornalista e publicitário em São Paulo, em Portugal, onde morou por três anos, e Rio de Janeiro. Da Academia Brasileira de Letras recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Foi condecorado pelo governo francês com a comenda: Cavalheiro das Artes e das Letras. O livro “Meu Querido Canibal”, de sua autoria é obra obrigatória no curso de literatura brasileira da Sorbonne, na França. Seu livro “Essa Terra” já vendeu mais de 150.000 exemplares em 15 idiomas. Um escritor com esta notável história de vida, é um dos homens mais simples e camarada que já conheci. Descubri a obra e o escritor ao mesmo tempo em um projeto de Raimundo Carrero: Escritores ao Vivo, aqui no Recife. Anos depois nos encontramos em Marechal Deodoro na Flimar e a sensação que me veio pela sua simpatia foi de rever um bom e generoso amigo. Agora um bate-papo com Antônio Torres.


O que ficou do menino que teve o abc apresentado por sua mãe e encantou-se pela palavra escrita ao ver o pequeno grande livro Seleta Escolar, lhe apresentado pelas mãos da professora Tereza, para o escritor Antônio Torres?

Ficou a memória de um tempo que era ao mesmo tempo de carências e de sonhos. Chegar à palavra escrita no ambiente rural e ágrafo onde nasci foi a minha descoberta do mundo. Porque antes de minha mãe me mostrar um abc e me dizer o nome das letras, e da professora Serafina me apresentar à poesia de Castro Alves, e a professora Tereza a prosa toda da Seleta Escolar, o que incluía José de Alencar, sim, era como se antes disso o mundo não existisse. Quem diria que, em pleno século XX, o aprendizado literário e o imaginário de um escritor brasileiro começassem a ser formado... na roça!  

O jovem jornalista de Salvador, que pegava o bonde para fazer suas entrevistas, resolveu trabalhar no jornal Ultima Hora, chegou em São Paulo e conseguiu. Como foi isso?

Cheguei a São Paulo em janeiro de 1961, ainda na faixa dos vinte anos, querendo trabalhar na Última Hora, cujo slogan empolgava: “Um jornal vibrante, uma arma do povo”. Bati na porta, pedi para falar com o editor de assuntos da cidade, que era um baiano chamado Carlos Coelho. Depois de uns dez minutos de conversa, ele se levantou, fazendo sinal para que eu o acompanhasse. Segui-o até um bar perto da Redação, onde ele pediu um conhaque, perguntando se eu também queria. Respondi-lhe que não. Foi minha sorte, como vim a perceber, ao final do encontro, quando ele disse: “Jurei para mim mesmo que nunca mais ia dar uma oportunidade aqui para um baiano. Porque o último que me apareceu, saiu com um fotógrafo para fazer uma reportagem e, no caminho, parou num botequim e nunca mais voltou. Mas já vi que você não é desse tipo”. Pronto, isso foi meio caminho andado. O resto veio com o trabalho mesmo. Mas olhe, faz algum tempo fizeram um livro sobre a UH paulista, e muitos depoimentos foram parecidos com o meu: chegar lá, bater na porta, entrar e ficar. Como aconteceu com Ignácio de Loyola Brandão, que é do interior de São Paulo (Araraquara), e José Roberto Guzzo, que é paulistano mesmo. Era um tempo de oportunidades. E o Brasil inteiro estava naquele jornal, competentemente comandado por dois pernambucanos: Josimar Moreira, na direção geral, e Múcio Borges da Fonseca, na chefia da Redação.  

Uma vez, no bairro em que morava no Rio, caiam pingos d’água do céu que deslizavam pelas folhas e encharcavam o solo que exalava cheiro de terra molhada. Chovia em Copacabana, sob sua contemplação tudo isso acabou em que romance de sua autoria?

“O cachorro e o lobo”, que é o “Essa terra” revisitado, vinte anos depois. O cheiro da terra com as primeiras pancadas de chuva me fez lembrar de dois versos de “Ne me quittes pas”, a bela canção do belga Jacques Brel: “Eu te oferecerei, pérolas de chuva, vindas de um país, onde nunca chove”. Aí me lembrei do Junco, e do personagem chamado Totonhim, que ao final do “Essa terra” vai embora para São Paulo. Corri para a máquina e bati lá: “Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo meu pai, que disso tudo tem um pouco”. Pronto. Fiz Totonhim voltar, por causa dos oitenta anos do pai. Dez anos depois, esse personagem iria me render outro romance, o “Pelo fundo da agulha”, assim completando a trilogia iniciada por “Essa terra”.

Sendo você um amante do jazz, fã da boa música, como esse bom gosto chega em seu processo de criação literária?

Minha ligação com a música começou na infância, por causa de uma vizinha que costumava espantar o medo da noite tocando numa viola os “rimances” do cordel, como o do Pavão Misterioso, “A chegada de Lampião ao inferno”. Depois foi o “jazz” que tocava nas missas solenes. Um dia chegou o Serviço de Alto Falante trazendo toda a Rádio Nacional para o sertão, com Luiz Gonzaga fazendo o povo chorar, quando ele cantava o “Assum preto”. Quando cheguei ao piano de Thelonious Monk e ao trompete de Miles Davis (almas-gêmeas do saxofonista Raimundo Carrero), já tinha a minha alma impregnada de música. Por isso duas palavras de um crítico norte-americano sobre o “Essa terra” me deixou nas nuvens: “Prosa melódica”. Isso me fez um bem...

Eu quero uma casa no campo/ Onde eu possa compor muitos rocks rurais/ E tenha somente a certeza/ Dos amigos do peito e nada mais/ Eu quero uma casa no campo/ Onde eu possa ficar do tamanho da paz/ E tenha somente a certeza/ Dos limites do corpo e nada mais...” (Música: Casa no Campo de Zé Rodrix) Essa música na voz de Elis Regina é uma das mais belas interpretações de nossa MPB. Foi mais ou menos isso que te aconteceu para você agora estar morando em uma bela casa de campo em Itaipava, conforme podemos ver no programa Álbum de Retratos de Marcelo Moutinho no Canal Brasil?

Das minhas janelas vejo árvores, pássaros, montanhas. Mas moro num condomínio com sessenta casas, numa área bem central de Itaipava, que é um distrito de Petrópolis. A diferença para Copacabana, onde eu morava, é que aqui há muito verde e mais silêncio – agora só me faltam o exílio e a astúcia, conforme a receita de escrever do doutor James Joyce. Ah, e não foi só em “Casa no Campo” que Elis Regina arrasou. Num país de belas cantoras, ela se revelou uma intérprete inigualável. Cantando, por exemplo, “Zambi”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, Elis parece entrar na pele, no coração e na alma de Zumbi dos Palmares. Eta baixinha arretada.