Quando a criação e prazerosa
Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet
Na vida ele trata do aqui e agora, faz um cinema que desconfia e em seus
filmes encontra um passado munido de memória. Sylvio Back tem os filmes que faz
como uma família.
O oficio de se fazer cinema é prazeroso?
Toda imersão moral e existencial na criação é tão prazerosa (a palavra é
excelente!) quanto a consumação física e psicológica do ato sexual. Não à toa
que, quando damos um poema, roteiro por terminado ou assistimos à primeira
cópia do filme, quando abrimos livro recém-publicado ou ouvimos a gravação
inaugural de uma música, etc., bate uma lassidão idêntica a que sentimos
pós-coito... Como se adentrássemos num universo onírico que parecia
inalcançável, e que, já é, está aí, é todo seu! Para o bem e para o mal...
O resgate do passado remoto e recente se faz
necessário no cinema?
Talvez o que de pronto possa lhe responder é que na vida trato do aqui e
agora, apenas de olho no futuro imediato. Nos filmes, sim, reenceno o passado
munido da memória, que é a melhor cineasta de todas, pois embaralha tudo
ansiando pelo foco como se nada tivesse mudado. A dinâmica do pretérito é a
força motriz para desvendar o desconhecido com os enganos de sempre.
Sim, apraz-me borrar as
fronteiras entre documentário e ficção. Daí eu investir no chamado docudrama,
uma espécie de antidoc, pois naquilo que o documental não dá conta, o imaginário
como que vem em socorro, e ambos se irmanam feito siameses. Depois, como saber
o que é um ou é outro quando submetidos à voragem da linguagem e dos cortes
cinematográficos, uma invenção da modernidade que subverteu todos os códigos de
leitura do real até então conhecidos. Todo filme é uma viagem ao tempo. Da iluminura
mental que desencadeia sua realização a imagens editadas faiscando na tela, há
todo um périplo criador que ora avança a ideia original, ora a deteriora,
quando não a inverte ou deleta, pura e simplesmente. É que não consigo vislumbrar diferença
entre ficção e documental. Quando homens e seus feitos surgem na tela, tudo
vira recordação (acordes do coração?), reitero, como saber onde começa uma e
termina o outro? Tanto é que na ficção ou nos "docudramas", o passado
recente e o remoto sofrem tamanha atualização imagética, fruto de uma voraz bricolagem
(ressignificação icônica e irônica de filmes de arquivo), a ponto de conturbar
o espectador. Adoro deixar a plateia órfã, sem corrimão de qualquer natureza
política, ideológica ou moral, creditando a ela a conclusão da narrativa que o
filme deixou em aberto. Portanto, é um privilégio poder estabelecer esse
diálogo livre, de mão dupla, com quem o assiste, ora conflagrando a história
oficial, como em "República Guarani", "Revolução de 30" ou
"Rádio Auriverde", ora resgatando a angústia de personagens e
temáticas ambíguas, como em "Lost Zweig", "Cruz e Sousa - O
Poeta do Desterro", "O Contestado - Restos Mortais", ou
"Aleluia, Gretchen". Em síntese, no futuro, gostaria que quando minha
obra fosse lembrada que se dissesse que cada filme do Sylvio Back foi feito por
um diretor diferente.
Com 76 prêmios nacionais e internacionais como
você analisa o reconhecimento de sua arte em todo o mundo?
Por trafegar com destemor pela história
do Brasil, um dos eixos da minha obra, nitidamente de viés anti nacionalista, dá
para imaginar que a polêmica tem se grudado em muitos títulos, ainda que polêmica,
é truísmo, não é algo que se premedita. De qualquer forma, nessa filmografia de
pegada libertária, avessa ao coro dos satisfeitos, inevitável que sempre acabe
subsistindo uma incompreensão, muitas vezes holística, ainda que nenhum filme
duble o anterior ou volte a investir no que deu certo. Essa marca registrada
tem selo e reconhecimento internacionais. Não por acaso detenho esta fieira de
quase oitenta prêmios, inúmeros do mundo afora. Assim, de cabeça, tenho pra mim
que quase todos meus filmes têm passaporte carimbado!
Com cinco décadas como diretor, roteirista,
produtor e escritor. Algum projeto ainda não realizado no mundo da sétima arte?
Há alguns anos, resolvi só comemorar aniversário quando estivesse com
obra concluída! Assim, sinto-me em plenos 38 anos (!), já que “O Universo Graciliano”,
agora em DVD, é o meu rebento mais recente nessa contabilidade biográfica. Como
a madrastice financeira voa randômicamente sobre o cinema de autor no país, há
que inventar projetos que já nasçam longevos! Em tom de boutade, repito o mantra de que é preciso viver cento e cinquenta
anos para formatar uma obra no Brasil tantos os percalços entre um filme e
outro, quando há outro no horizonte... No entanto, confesso que, feito os
artistas medievos de múltipla expertise, circulo por nichos afins da criação,
da escrita e publicação de roteiros(dez na estante), livros de poesia (nove, com
o recente “Quermesse”, de versos eróticos), a ensaios e artigos na grande
mídia, a cesta de projetos é desfrutável, porém me reservo de não enunciá-los
para que não se perca seu ineditismo... A acrescentar segmento em que, pela
primeira vez, me vejo integrado de corpo e alma: a defesa dos direitos autorais
do diretor de cinema e do audiovisual. É incontornável, sem diretor não tem
filme, novela, minissérie, documentário ou animação! Com esse mote, cineastas
de todas pegadas, de filmes pop a filmes cabeça, criamos há um ano a DBCA –
Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual, entidade apoiada por dezenas de
congêneres da América Latina e da Europa, dedicada à arrecadação e distribuição
de direitos autorais de todo audiovisual com nossa assinatura que tenha
comunicação pública em qualquer plataforma analógica ou digital. Uma
verdadeira revolução no audiovisual brasileiro! Cineasta (hoje já somos 200
filiados) ou não, quem estiver a fim de conhecer a DBCA, para a qual fui
honrosamente eleito presidente, por favor, consulte nosso saite. http://www.diretoresbrasil.org/
O que te seduz no universo Graciliano?
A ideia fundadora de biografar
Graciliano Ramos no cinema nasceu por acaso (o acaso preside a criação!) no
começo da década passada. E foi quase simultânea às pesquisas literárias e de
campo em Maceió e no Agreste alagoano para a escritura do roteiro de “A Angústia”,
baseado no seu romance “Angústia” que, infelizmente, não vai mais ser filmado
por mim, pois os herdeiros se recusaram a renovar os direitos do livro. Por uma
feliz coincidência, eu já havia feito um documentário pioneiro em 1995
precedendo a realização do meu longa-metragem, “Lost Zweig” (2003), ao filmar o premiado “Zweig: A Morte em Cena”,
produzido pela TV alemã. Pensei no mesmo procedimento quando decidi filmar “O
Universo Graciliano”. E, novamente, a intuição me premiou e me salvou,
justamente, porque Graciliano Ramos é
um personagem
que extrapola em todos os sentidos qualquer redução. Assim, acabei me sentindo
quites com ele ao ir às origens e ao périplo existencial, literário, moral e
ideológico do meu herói. Do nascimento (em
Quebrangulo/AL e meninice em Buíque/PE, a comerciário, romancista e homem
público (prefeito de Palmeira dos Índios), até sua inusitada prisão em Maceió,
deportação e prisão em 1936 (“Emigraram-me”, relembra Lêdo Ivo [1924-2012] em
sua última entrevista), a permanência e morte no Rio de Janeiro, seu cotidiano
é encimado por tragédias e polêmicas. Munido desse manancial, “O Universo
Graciliano” intenta transmitir um sentimento que foi me conflagrando já quando
estudava sua obra e relatos sobre o autor, até a oitiva de uma vintena de
pessoas, direta ou indiretamente, vinculada a ele. E isso fica explícito ao se
ouvir quem o frequentou durante décadas como pessoa, ou, por osmose, quem tenha
se apaixonado, principalmente, pelos personagens seminais de “São Bernardo”,
“Angústia” e “Vidas Secas”. É por essa senda que “O Universo Graciliano” se
imiscui na tentativa de vasculhar rastros, sombras e escombros memoriais, onde
verdades e mentiras se embaralham, sobre a maior esfinge da literatura
brasileira. O filme tem várias “estrelas”, se assim eu pudesse chamar estes
meus lindos entrevistados, com idade média entre 85/90 anos, que tiveram íntima
convivência com o “Velho Graça”. Todos, no entanto, conseguem capturar-lhe a
mitologia, sem meias palavras, com uma lucidez, recordações e coragem
assombrosas. Confluem para o arcabouço investigativo e rememorativo do
documentário, dentre outros, laivos familiares da filha de Graciliano, Luiza
Amado; os bem-humorados e ácidos comentários do poeta e romancista, Lêdo Ivo; o
aguçado senso crítico do seu confidente, o advogado e filósofo, Paulo
Mercadante (1923-2013); a percuciente definição de como o escritor encarava seu
ofício, pela outra filha, Clara Ramos (1932-1993); a emocionante canção entoada por
Beatriz Ryff (1909-2012); e o saboroso relato do historiador Ivan Barros, de
Palmeira dos Índios. A propósito, não poderia deixar de lamentar,
reverenciando-os aqui, o desaparecimento, no decorrer dos últimos anos entre as
filmagens e a finalização do filme, de algumas personalidades que, cujos
intimoratos testemunhos, hoje, únicos e irrepetíveis, graças à magia do cinema,
tornaram-se, digamos assim, transcendentais.
“Cinemateca Sylvio Back”, com a materialização
desse projeto que disponibiliza a sua obra, o que mais lhe realizou?
Como meus filmes são minha família, dá para
inferir que cada título é como filho, e como preferir um ao outro, hein? Todos traem
em seus fotogramas e frames os mesmos sacrifícios, alegrias, expectativas,
tristezas e glórias, umas vãs e outras, também! Entre as alvíssaras a celebrar,
no entanto, é que nestes tempos de
crise do mercado, o lançamento da "Cinemateca Sylvio Back" é um luxo
à toda prova! Aliás, não é de hoje que a Distribuidora Versátil de São Paulo
aposta na minha obra, cujo Vol. I, lançado anos atrás e esgotado, estava a
exigir uma segunda fornada. Então, resolvemos aguardar a estreia nacional em
cinemas de "O Universo Graciliano" para, juntamente com mais cinco
longas inéditos em DVD, juntar no Vol. II, e assim oferecer ao mercado todos
meus doze longas-metragens. Sinto-me orgulhoso e recompensado de poder
disponibilizar ao público esses filmes de pegada absolutamente independente,
seja a ficção desalinhada à narrativa de consumo televisivo, sejam os
antidocumentários na contramão da febre de docs "chapa branca" e
hagiográficos. Um cinema moral, como escreve a crítica Solange Stecz, autora do
meu verbete na Enciclopédia do Cinema Brasileiro, que vem imprimindo sua marca
registrada há quase cinquenta anos, desde "Lance Maior" em 1968,
minha estreia na direção de longas-metragens. Portanto, filhos, sejam bem
vindos!
Você afirmou: “Faço um cinema que
desconfia”. Até onde suas paixões
interferem em seu cinema?
(aqui, Cássio, tomei a liberdade de juntar as perguntas...)
O futuro espectador em algum momento chega a
influenciar você na elaboração de um filme?
Essa feliz epifania sobre o significado de minha obra devo ao crítico e
escritor Carlos Alberto Mattos. Sim, ele foi na jugular das minhas atenções,
intenções e pretensões morais, existenciais e estéticas, tanto quando filmo,
como quando promovo colagens/bricolagens com obra de terceiros nos chamados
“docudramas”. Jamais filmei flertando com o público, a mídia ou a crítica.
Embora eles sejam, ora direis, a razão do meu cinema, procuro antes que tudo,
como seu primeiro espectador, não levar ninguém pelas mãos, mas ser fiel a mim
mesmo, insubmisso a ideários servis e a estéticas de plantão. Nessa atitude instintivamente
polêmica (que me define desde a juventude!), talvez resida aí alguma
dificuldade, não por acaso, de uma historiografia de corte unívoco do cinema
brasileiro, em reconhecer a incontornável estética e ética da minha obra, cuja
pertinência é inoxidável se comparada ao que se tem produzido nos últimos cinquenta
anos. Essa solidão só dá consistência a esse projeto absolutamente pessoal. É
um conjunto que reflete
a coerência de uma filmografia que, formatada com inescapáveis laivos
autobiográficos dentro de circunstâncias adversas com que se produz no país, acaba
revelando um candente olhar humanista e poético sobre personagens e temas
muitas vezes excluídos, quando não, perdedores tout cour! Dessa forma, a edição dos dois packs desta
"Cinemateca Sylvio Back", cujo titulo se remete, justamente, a um
estilo desconcertante que mescla ficção, filmagem ao vivo e material de arquivo
através de uma narrativa equidistante das paixões de seu tempo. Postura que,
talvez (a incompreensão faz parte da obra de arte!), permita às novas gerações
conferir o azimute histórico, político e social de um cinema engajado com o
imaginário do espectador.
























