domingo, 29 de maio de 2016

SYLVIO BACK

Quando a criação e prazerosa

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Na vida ele trata do aqui e agora, faz um cinema que desconfia e em seus filmes encontra um passado munido de memória. Sylvio Back tem os filmes que faz como uma família.


 O oficio de se fazer cinema é prazeroso?

Toda imersão moral e existencial na criação é tão prazerosa (a palavra é excelente!) quanto a consumação física e psicológica do ato sexual. Não à toa que, quando damos um poema, roteiro por terminado ou assistimos à primeira cópia do filme, quando abrimos livro recém-publicado ou ouvimos a gravação inaugural de uma música, etc., bate uma lassidão idêntica a que sentimos pós-coito... Como se adentrássemos num universo onírico que parecia inalcançável, e que, já é, está aí, é todo seu! Para o bem e para o mal...

O resgate do passado remoto e recente se faz necessário no cinema?

Talvez o que de pronto possa lhe responder é que na vida trato do aqui e agora, apenas de olho no futuro imediato. Nos filmes, sim, reenceno o passado munido da memória, que é a melhor cineasta de todas, pois embaralha tudo ansiando pelo foco como se nada tivesse mudado. A dinâmica do pretérito é a força motriz para desvendar o desconhecido com os enganos de sempre.
Sim, apraz-me borrar as fronteiras entre documentário e ficção. Daí eu investir no chamado docudrama, uma espécie de antidoc, pois naquilo que o documental não dá conta, o imaginário como que vem em socorro, e ambos se irmanam feito siameses. Depois, como saber o que é um ou é outro quando submetidos à voragem da linguagem e dos cortes cinematográficos, uma invenção da modernidade que subverteu todos os códigos de leitura do real até então conhecidos. Todo filme é uma viagem ao tempo. Da iluminura mental que desencadeia sua realização a imagens editadas faiscando na tela, há todo um périplo criador que ora avança a ideia original, ora a deteriora, quando não a inverte ou deleta, pura e simplesmente. É que não consigo vislumbrar diferença entre ficção e documental. Quando homens e seus feitos surgem na tela, tudo vira recordação (acordes do coração?), reitero, como saber onde começa uma e termina o outro? Tanto é que na ficção ou nos "docudramas", o passado recente e o remoto sofrem tamanha atualização imagética, fruto de uma voraz bricolagem (ressignificação icônica e irônica de filmes de arquivo), a ponto de conturbar o espectador. Adoro deixar a plateia órfã, sem corrimão de qualquer natureza política, ideológica ou moral, creditando a ela a conclusão da narrativa que o filme deixou em aberto. Portanto, é um privilégio poder estabelecer esse diálogo livre, de mão dupla, com quem o assiste, ora conflagrando a história oficial, como em "República Guarani", "Revolução de 30" ou "Rádio Auriverde", ora resgatando a angústia de personagens e temáticas ambíguas, como em "Lost Zweig", "Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro", "O Contestado - Restos Mortais", ou "Aleluia, Gretchen". Em síntese, no futuro, gostaria que quando minha obra fosse lembrada que se dissesse que cada filme do Sylvio Back foi feito por um diretor diferente.

Com 76 prêmios nacionais e internacionais como você analisa o reconhecimento de sua arte em todo o mundo?

Por trafegar com destemor pela história do Brasil, um dos eixos da minha obra, nitidamente de viés anti nacionalista, dá para imaginar que a polêmica tem se grudado em muitos títulos, ainda que polêmica, é truísmo, não é algo que se premedita. De qualquer forma, nessa filmografia de pegada libertária, avessa ao coro dos satisfeitos, inevitável que sempre acabe subsistindo uma incompreensão, muitas vezes holística, ainda que nenhum filme duble o anterior ou volte a investir no que deu certo. Essa marca registrada tem selo e reconhecimento internacionais. Não por acaso detenho esta fieira de quase oitenta prêmios, inúmeros do mundo afora. Assim, de cabeça, tenho pra mim que quase todos meus filmes têm passaporte carimbado!

Com cinco décadas como diretor, roteirista, produtor e escritor. Algum projeto ainda não realizado no mundo da sétima arte?

Há alguns anos, resolvi só comemorar aniversário quando estivesse com obra concluída! Assim, sinto-me em plenos 38 anos (!), já que “O Universo Graciliano”, agora em DVD, é o meu rebento mais recente nessa contabilidade biográfica. Como a madrastice financeira voa randômicamente sobre o cinema de autor no país, há que inventar projetos que já nasçam longevos! Em tom de boutade, repito o mantra de que é preciso viver cento e cinquenta anos para formatar uma obra no Brasil tantos os percalços entre um filme e outro, quando há outro no horizonte... No entanto, confesso que, feito os artistas medievos de múltipla expertise, circulo por nichos afins da criação, da escrita e publicação de roteiros(dez na estante), livros de poesia (nove, com o recente “Quermesse”, de versos eróticos), a ensaios e artigos na grande mídia, a cesta de projetos é desfrutável, porém me reservo de não enunciá-los para que não se perca seu ineditismo... A acrescentar segmento em que, pela primeira vez, me vejo integrado de corpo e alma: a defesa dos direitos autorais do diretor de cinema e do audiovisual. É incontornável, sem diretor não tem filme, novela, minissérie, documentário ou animação! Com esse mote, cineastas de todas pegadas, de filmes pop a filmes cabeça, criamos há um ano a DBCA – Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual, entidade apoiada por dezenas de congêneres da América Latina e da Europa, dedicada à arrecadação e distribuição de direitos autorais de todo audiovisual com nossa assinatura que tenha comunicação pública em qualquer  plataforma analógica ou digital. Uma verdadeira revolução no audiovisual brasileiro! Cineasta (hoje já somos 200 filiados) ou não, quem estiver a fim de conhecer a DBCA, para a qual fui honrosamente eleito presidente, por favor, consulte nosso saite. http://www.diretoresbrasil.org/

O que te seduz no universo Graciliano?

A ideia fundadora de biografar Graciliano Ramos no cinema nasceu por acaso (o acaso preside a criação!) no começo da década passada. E foi quase simultânea às pesquisas literárias e de campo em Maceió e no Agreste alagoano para a escritura do roteiro de “A Angústia”, baseado no seu romance “Angústia” que, infelizmente, não vai mais ser filmado por mim, pois os herdeiros se recusaram a renovar os direitos do livro. Por uma feliz coincidência, eu já havia feito um documentário pioneiro em 1995 precedendo a realização do meu longa-metragem, “Lost Zweig” (2003), ao filmar o premiado “Zweig: A Morte em Cena”, produzido pela TV alemã. Pensei no mesmo procedimento quando decidi filmar “O Universo Graciliano”. E, novamente, a intuição me premiou e me salvou, justamente, porque Graciliano Ramos é um personagem que extrapola em todos os sentidos qualquer redução. Assim, acabei me sentindo quites com ele ao ir às origens e ao périplo existencial, literário, moral e ideológico do meu herói. Do nascimento (em Quebrangulo/AL e meninice em Buíque/PE, a comerciário, romancista e homem público (prefeito de Palmeira dos Índios), até sua inusitada prisão em Maceió, deportação e prisão em 1936 (“Emigraram-me”, relembra Lêdo Ivo [1924-2012] em sua última entrevista), a permanência e morte no Rio de Janeiro, seu cotidiano é encimado por tragédias e polêmicas. Munido desse manancial, “O Universo Graciliano” intenta transmitir um sentimento que foi me conflagrando já quando estudava sua obra e relatos sobre o autor, até a oitiva de uma vintena de pessoas, direta ou indiretamente, vinculada a ele. E isso fica explícito ao se ouvir quem o frequentou durante décadas como pessoa, ou, por osmose, quem tenha se apaixonado, principalmente, pelos personagens seminais de “São Bernardo”, “Angústia” e “Vidas Secas”. É por essa senda que “O Universo Graciliano” se imiscui na tentativa de vasculhar rastros, sombras e escombros memoriais, onde verdades e mentiras se embaralham, sobre a maior esfinge da literatura brasileira. O filme tem várias “estrelas”, se assim eu pudesse chamar estes meus lindos entrevistados, com idade média entre 85/90 anos, que tiveram íntima convivência com o “Velho Graça”. Todos, no entanto, conseguem capturar-lhe a mitologia, sem meias palavras, com uma lucidez, recordações e coragem assombrosas. Confluem para o arcabouço investigativo e rememorativo do documentário, dentre outros, laivos familiares da filha de Graciliano, Luiza Amado; os bem-humorados e ácidos comentários do poeta e romancista, Lêdo Ivo; o aguçado senso crítico do seu confidente, o advogado e filósofo, Paulo Mercadante (1923-2013); a percuciente definição de como o escritor encarava seu ofício, pela outra filha, Clara Ramos (1932-1993); a emocionante canção entoada por Beatriz Ryff (1909-2012); e o saboroso relato do historiador Ivan Barros, de Palmeira dos Índios. A propósito, não poderia deixar de lamentar, reverenciando-os aqui, o desaparecimento, no decorrer dos últimos anos entre as filmagens e a finalização do filme, de algumas personalidades que, cujos intimoratos testemunhos, hoje, únicos e irrepetíveis, graças à magia do cinema, tornaram-se, digamos assim, transcendentais.   

“Cinemateca Sylvio Back”, com a materialização desse projeto que disponibiliza a sua obra, o que mais lhe realizou?

Como meus filmes são minha família, dá para inferir que cada título é como filho, e como preferir um ao outro, hein? Todos traem em seus fotogramas e frames os mesmos sacrifícios, alegrias, expectativas, tristezas e glórias, umas vãs e outras, também! Entre as alvíssaras a celebrar, no entanto, é que nestes tempos de crise do mercado, o lançamento da "Cinemateca Sylvio Back" é um luxo à toda prova! Aliás, não é de hoje que a Distribuidora Versátil de São Paulo aposta na minha obra, cujo Vol. I, lançado anos atrás e esgotado, estava a exigir uma segunda fornada. Então, resolvemos aguardar a estreia nacional em cinemas de "O Universo Graciliano" para, juntamente com mais cinco longas inéditos em DVD, juntar no Vol. II, e assim oferecer ao mercado todos meus doze longas-metragens. Sinto-me orgulhoso e recompensado de poder disponibilizar ao público esses filmes de pegada absolutamente independente, seja a ficção desalinhada à narrativa de consumo televisivo, sejam os antidocumentários na contramão da febre de docs "chapa branca" e hagiográficos. Um cinema moral, como escreve a crítica Solange Stecz, autora do meu verbete na Enciclopédia do Cinema Brasileiro, que vem imprimindo sua marca registrada há quase cinquenta anos, desde "Lance Maior" em 1968, minha estreia na direção de longas-metragens. Portanto, filhos, sejam bem vindos!

Você afirmou: “Faço um cinema que desconfia”.  Até onde suas paixões interferem em seu cinema?

(aqui, Cássio, tomei a liberdade de juntar as perguntas...)

O futuro espectador em algum momento chega a influenciar você na elaboração de um filme?

Essa feliz epifania sobre o significado de minha obra devo ao crítico e escritor Carlos Alberto Mattos. Sim, ele foi na jugular das minhas atenções, intenções e pretensões morais, existenciais e estéticas, tanto quando filmo, como quando promovo colagens/bricolagens com obra de terceiros nos chamados “docudramas”. Jamais filmei flertando com o público, a mídia ou a crítica. Embora eles sejam, ora direis, a razão do meu cinema, procuro antes que tudo, como seu primeiro espectador, não levar ninguém pelas mãos, mas ser fiel a mim mesmo, insubmisso a ideários servis e a estéticas de plantão. Nessa atitude instintivamente polêmica (que me define desde a juventude!), talvez resida aí alguma dificuldade, não por acaso, de uma historiografia de corte unívoco do cinema brasileiro, em reconhecer a incontornável estética e ética da minha obra, cuja pertinência é inoxidável se comparada ao que se tem produzido nos últimos cinquenta anos. Essa solidão só dá consistência a esse projeto absolutamente pessoal. É um conjunto que reflete a coerência de uma filmografia que, formatada com inescapáveis laivos autobiográficos dentro de circunstâncias adversas com que se produz no país, acaba revelando um candente olhar humanista e poético sobre personagens e temas muitas vezes excluídos, quando não, perdedores tout cour! Dessa forma, a edição dos dois packs desta "Cinemateca Sylvio Back", cujo titulo se remete, justamente, a um estilo desconcertante que mescla ficção, filmagem ao vivo e material de arquivo através de uma narrativa equidistante das paixões de seu tempo. Postura que, talvez (a incompreensão faz parte da obra de arte!), permita às novas gerações conferir o azimute histórico, político e social de um cinema engajado com o imaginário do espectador. 




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