domingo, 12 de junho de 2016

NARA LEÃO

Mais que uma cantora uma personagem importante de nossa MBP

Por Cássio Cavalcante

Entrevista simulada respostas retiradas do livro “Nara Leão – A Musa dos Trópicos”, no capitulo “Opinião de Nara”.


O apartamento em Copacabana que morou foi um dos principais berços de um movimento musical que revolucionou a música universal. Primeira cantora branca da zona sul carioca a gravar samba de morro. Lançou nomes como Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Suely Costa, Jardes Macalé. Com o golpe de 1964 cantando música de protesto foi símbolo nacional de resistência, depois cantou A Banda com todo o Brasil. Primeira interprete a gravar um disco somente com músicas de Roberto e Erasmo Carlos, com isso quebrando um preconceito existente na elite de nossa música. Foi a primeira artista brasileira a gravar no sistema compact disc. Gravou no Japão o CD “Garota de Ipanema”. Foi musa da Bossa Nova, apoiou o Tropicalismo, foi simpática a Jovem guarda, Nara Leão fez história na Música Popular Brasileira.

(Foto: Frederico Mendes)

Você participou ativamente dos festivais, páginas importantes da história da Música Popular Brasileira. Em 1966 cantando com Chico Buarque a Música “A Banda”, empatou no primeiro lugar com a canção “Disparada”, defendida por Jair Rodrigues. No ano seguinte cantando com Sidney Miller a música “A Estrada e o Violeiro”, ganhou o prêmio de melhor letra. 1972 foi uma jurada não muito querida pelo regime da época. Em 1982 no MPB Shel defendeu “Maravilha Curativa”, foi vaiada e fez um corte na canção. Como você analisa esses eventos em sua carreira?

“Sofri um desgaste muito grande, depois da época dos festivais, com a televisão me consumindo de tal forma que perdi a vontade de cantar. As pessoas não estavam querendo me ouvir, mas iam ver o mito. Às vezes, gritavam tento que eu nem cantava com tanto barulho. Apenas abria a boca e era aquele delírio. As pessoas urravam e isso me dava uma sensação muito estranha. Além disso, perdi minha vida privada”.

“O fato de você ser muito aplaudido ou até vaiado num festival, como eu fui no Maracanãzinho, não mede a capacidade de um artista. Acho que o arranjo de Antônio Adolfo é lindo e que cantei muito bem”.

Você lançou muitos nomes, que hoje são importantes para nossa música, entre eles Chico Buarque de Holanda. Como é cantar as composições de Chico?

“Em matéria de cantar eu me sinto como alma gêmea de todas as músicas do Chico”.
“Bom, eu não sei o que o Chico acha, mas eu combino muito com ele. Não sei se ele acha que combina comigo. Acredito que sim”.

“Não deveria ter apenas um disco com músicas do Chico. Por mim gravaria o nº 1, nº 2, nº 3. Igual a Waldir Calmon antigamente”.

(Foto: Frederico Mendes)

Em relação ao sucesso, como você lida com isso?

“Mas não aguentei a barra do sucesso: autógrafos, mil entrevistas por dia. Shows, viagens etc. Era uma roda-viva grande demais que me absorvia o tempo inteiro. Já não tinha tempo útil para mim”.

“O sucesso me agrada, mas não ao ponto de fazer esquecer que sou uma mulher antes de ser uma cantora”.

E como você encara o público?

“Anteriormente, confesso que ficava muito preocupada com o público. Não entendia bem aquele negócio de ídolo. Fiquei apavorada uma vez tive de deixar o local do show num camburão da polícia”,

“Não tenho mais dificuldade de encarar o público. Eu cantava de costas, tinha medo de errar. Também melhorei tecnicamente, tive aulas de canto. Eu ficava rouca a toda hora, agora não fico mais. Fundamentalmente, hoje eu tenho prazer em me apresentar. Gosto de ouvir o público cantando junto comigo”.

A MPB tem muitos estilos. Qual sua análise de nossa música?

“A música popular é riquíssima e há várias formas de cantá-la: o folclórico, o regional, o protesto, o lado romântico, e cada um deve decidir se lhe convém aderir a apenas um estilo ou variar. Não acho que ninguém tenha de repetir o meu comportamento, assim como não vejo por que repetir o dos outros”.

“A música brasileira tá muito bem. Hoje já existe uma coisa que há dez anos não era possível, as músicas regionais estão conseguindo ser mostradas. Hoje temos um Fagner, uma Amelinha que estão aí para provar isso”.

Ao longo de sua carreira sua voz foi sempre muito questionada. O que diz disso?

“Era uma malhação horrorosa. Existia uma coisa estabelecida e eu não estava nela. Talvez por isso eu tenha ficado tão na dúvida”.

“Eu tenho voz, sim, com licença. Se eu quiser solto um dó de peito e quebro aquele vidro. Eu gosto de cantar como eu canto. É minha opção”.

(Foto: Frederico Mendes)

O que você acha de nossa televisão?

“O que acontece agora é que a TV não divulga o artista. Somente o que está no Hit Parede”.

Para Nara Leão tudo começou com a Bossa Nova. Como você definiria esse gênero musical?

“A Bossa Nova trouxe uma batida diferente, inventada. Sua harmonia requintada, intimista, acabou com aquele negócio de todo mundo cantar gritando. Gosto de ver que os amigos da minha filha curtem a Bossa Nova e que na plateia dos meus shows os jovens dividem os lugares com o pessoal de minha geração”.


“Acho que influenciou muita gente. Agora mesmo, eu estava ouvindo músicas de sambistas de morro, e me deu um susto, porque tinha muito da Bossa Nova. Pelo que notei até os sambistas captaram o gênero”.






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