Mais que uma cantora
uma personagem importante de nossa MBP
Por Cássio Cavalcante
Entrevista simulada respostas retiradas do livro “Nara Leão – A Musa dos
Trópicos”, no capitulo “Opinião de Nara”.
O apartamento em Copacabana que morou
foi um dos principais berços de um movimento musical que revolucionou a música
universal. Primeira cantora branca da zona sul carioca a gravar samba de morro.
Lançou nomes como Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Suely Costa, Jardes
Macalé. Com o golpe de 1964 cantando música de protesto foi símbolo nacional de
resistência, depois cantou A Banda com todo o Brasil. Primeira interprete a
gravar um disco somente com músicas de Roberto e Erasmo Carlos, com isso
quebrando um preconceito existente na elite de nossa música. Foi a primeira
artista brasileira a gravar no sistema compact
disc. Gravou no Japão o CD “Garota de Ipanema”. Foi musa da Bossa Nova,
apoiou o Tropicalismo, foi simpática a Jovem guarda, Nara Leão fez história na
Música Popular Brasileira.
(Foto: Frederico Mendes)
Você participou ativamente dos festivais, páginas importantes da história
da Música Popular Brasileira. Em 1966 cantando com Chico Buarque a Música “A
Banda”, empatou no primeiro lugar com a canção “Disparada”, defendida por Jair
Rodrigues. No ano seguinte cantando com Sidney Miller a música “A Estrada e o
Violeiro”, ganhou o prêmio de melhor letra. 1972 foi uma jurada não muito
querida pelo regime da época. Em 1982 no MPB Shel defendeu “Maravilha
Curativa”, foi vaiada e fez um corte na canção. Como você analisa esses eventos
em sua carreira?
“Sofri um desgaste muito grande,
depois da época dos festivais, com a televisão me consumindo de tal forma que
perdi a vontade de cantar. As pessoas não estavam querendo me ouvir, mas iam
ver o mito. Às vezes, gritavam tento que eu nem cantava com tanto barulho.
Apenas abria a boca e era aquele delírio. As pessoas urravam e isso me dava uma
sensação muito estranha. Além disso, perdi minha vida privada”.
“O fato de você ser muito aplaudido
ou até vaiado num festival, como eu fui no Maracanãzinho, não mede a capacidade
de um artista. Acho que o arranjo de Antônio Adolfo é lindo e que cantei muito
bem”.
Você lançou muitos nomes, que hoje são importantes para nossa música,
entre eles Chico Buarque de Holanda. Como é cantar as composições de Chico?
“Em matéria de cantar eu me sinto
como alma gêmea de todas as músicas do Chico”.
“Bom, eu não sei o que o Chico acha,
mas eu combino muito com ele. Não sei se ele acha que combina comigo. Acredito
que sim”.
“Não deveria ter apenas um disco com
músicas do Chico. Por mim gravaria o nº 1, nº 2,
nº 3. Igual a Waldir Calmon antigamente”.
(Foto: Frederico Mendes)
Em relação ao sucesso, como você lida com isso?
“Mas não aguentei a barra do sucesso:
autógrafos, mil entrevistas por dia. Shows, viagens etc. Era uma roda-viva
grande demais que me absorvia o tempo inteiro. Já não tinha tempo útil para
mim”.
“O sucesso me agrada, mas não ao
ponto de fazer esquecer que sou uma mulher antes de ser uma cantora”.
E como você encara o público?
“Anteriormente, confesso que ficava
muito preocupada com o público. Não entendia bem aquele negócio de ídolo.
Fiquei apavorada uma vez tive de deixar o local do show num camburão da polícia”,
“Não tenho mais dificuldade de
encarar o público. Eu cantava de costas, tinha medo de errar. Também melhorei
tecnicamente, tive aulas de canto. Eu ficava rouca a toda hora, agora não fico
mais. Fundamentalmente, hoje eu tenho prazer em me apresentar. Gosto de ouvir o
público cantando junto comigo”.
A MPB tem muitos estilos. Qual sua análise de nossa música?
“A música popular é riquíssima e há
várias formas de cantá-la: o folclórico, o regional, o protesto, o lado
romântico, e cada um deve decidir se lhe convém aderir a apenas um estilo ou
variar. Não acho que ninguém tenha de repetir o meu comportamento, assim como
não vejo por que repetir o dos outros”.
“A música brasileira tá muito bem.
Hoje já existe uma coisa que há dez anos não era possível, as músicas regionais
estão conseguindo ser mostradas. Hoje temos um Fagner, uma Amelinha que estão
aí para provar isso”.
Ao longo de sua carreira sua voz foi sempre muito questionada. O que diz
disso?
“Era uma malhação horrorosa. Existia
uma coisa estabelecida e eu não estava nela. Talvez por isso eu tenha ficado
tão na dúvida”.
“Eu tenho voz, sim, com licença. Se
eu quiser solto um dó de peito e quebro aquele vidro. Eu gosto de cantar como
eu canto. É minha opção”.
(Foto: Frederico Mendes)
O que você acha de nossa televisão?
“O que acontece agora é que a TV não
divulga o artista. Somente o que está no Hit
Parede”.
Para Nara Leão tudo começou com a Bossa Nova. Como você definiria esse
gênero musical?
“A Bossa Nova trouxe uma batida
diferente, inventada. Sua harmonia requintada, intimista, acabou com aquele
negócio de todo mundo cantar gritando. Gosto de ver que os amigos da minha
filha curtem a Bossa Nova e que na plateia dos meus shows os jovens dividem os
lugares com o pessoal de minha geração”.
“Acho que influenciou muita gente.
Agora mesmo, eu estava ouvindo músicas de sambistas de morro, e me deu um
susto, porque tinha muito da Bossa Nova. Pelo que notei até os sambistas
captaram o gênero”.









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