Quarenta anos de canções
que nos embalaram pela vida a fora
Por Cássio Cavalcante/
Fotos: Internet
Ele veio das dunas
brancas da onde queria ficar, enquanto engomou a calça contou uma história bem
curtinha fácil de contar que todos escutamos ate hoje. E voou com todo um país
nas asas de um pavão misterioso. Porque Ednardo quando canta só sorrisos lhe
respondem.
Com
tantos sucessos em sua carreira como “Pavão Misterioso”, “Artigo 26”, “Enquanto
Engoma a calça”, “Terral”, “Beira Mar”, “Carneiro”, entre outros, como você
analisa hoje a cena musical no Brasil?
É delicado debruçar sobre
assunto tão abrangente, acompanho na medida do possível, mas quase não vejo tv
ou escuto rádios destas normais, da chamada grande mídia, a não ser quando tem
algo muito interessante. Tenho no entanto acessado bastante a internet e
algumas coisas bacanas que vejo e escuto me dão ideia que a cena musical do
Brasil continua com pujança, é forçoso reconhecer no entanto, que não está
encenada a vertente independente que é pra onde migraram vários artistas já
conhecidos do grande público e de onde vem também promissores nomes.
Constata-se também que gravadoras masters com reduzidos casts, só estão
interessadas em manter em contrato o que é de fácil e raso consumo, salvo
honrosas exceções.
Qual
a contribuição do Pessoal do Ceará, para a sua música, a cearense e a de nosso
país?
Acredito que é grande,
muitos parceiros, assim igual a outros maravilhosos amigos do Piauí, de São
Paulo, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas
Gerais, entre tantos outros. No caso do Pessoal do Ceará, além da
inquestionável contribuição ao nosso cancioneiro brasileiro, vejo que outros
grupos despontam com força própria e demonstram que nossas músicas também fazem
parte de suas formações.
No
primeiro programa que você fez a nível nacional o cenário que te esperava era
composto por elementos como um jumentinho, um gibão, chapéu de cangaceiro e
espingarda. O Brasil hoje já tem a real dimensão artística do nordestino?
Claro que atualmente
nossa geração é vista em dimensão mais ampla, este equívoco inicial se dava por
visão estereotipada de como nos viam naqueles tempos, mas cada artista foi aos
poucos demonstrando que não era bem assim, neste caso que você cita, me recusei
a usar os paramentos para espanto da produção do programa de tv, eles achavam
que eu estaria à vontade, só que não. Pois desde nossos primeiros discos a
abrangência musical e estética estava muito além de um entendimento acanhado.
Qual
foi a importância de Augusto Pontes para o movimento da cena musical no Ceará?
Fundamental, não só para
nossa geração e parceiros, e também para outros gerações e áreas diferentes da
música. Augusto Pontes uma das cabeças inteligentes e inquietas, representava
de forma simbólica e também efetiva, esta efervescência criativa em várias
áreas artísticas, música, letras, poesia, teatro, publicidade, etc. Uma espécie
de mentor e fio condutor entre todos, encontramos a pessoa dele em quase todos
os movimentos importantes até 2009.
Teatro
José de Alencar, Fortaleza, 1979, acontece a Massafeira. O que foi esse evento
em termos de som, imagem, movimento e gente?
Foi e é maravilhoso,
porque continuam seus resultados na maioria dos que participaram e em outras
gerações que atualmente nela se espelham. Esta nova forma de compreender a arte
brasileira gerou outros movimentos coletivos de arte em vários outros Estados.
Atualmente no Ceará, posso citar o movimento Manifesta (em Fortaleza) e o
Festival União Ibiapaba (na serra de Ibiapaba), como oriundos diretos da
Massafeira de 1979 e 1980. Mas tem muitos outros.
Como
surgiu a ideia do livro sobre a Massafeira que você organizou? Foi muito
difícil materializar esse documento importante da cena cultural do Ceará?
Foi a natural necessidade
de se pensar em registrar o livro sobre a Massafeira depois de 30 anos de sua
realização com a importância que tem em descentralizar do eixo sudeste para o
nordeste, eventos de amostragens artísticas, empolgou a muitos. Tanto os que
participaram, quanto as novas gerações são entusiastas desta ideia. Foram 2
anos e 6 meses, juntando todo material iconográfico, fotos, desenhos,
depoimentos, textos, filmes, tivemos que resgatar até o disco duplo da
Massafeira que sequer a gravadora o tinha mais e haviam destruído a
matriz.
Os
festivais de música foram importantes na formação da música popular brasileira.
Por que acabaram, por que esse formato não sobreviveu ao tempo?
Penso que festivais
daquela forma competitiva conhecida, com júri, torcida, etc., sofreu natural
desgaste, pois ao escolher alguns vencedores e rejeitarem outros participantes,
quebrava a magia coletiva do fazer artístico. Atualmente, outros formatos têm
sido mais interessantes. Mas não devemos esquecer que de uma forma ou de outra
sempre haverá filtragens.
Você
já fez algumas trilhas sonoras para o cinema, como a do Filme Luzia Homem.
Gosta desse seguimento no trabalho musical?
Gosto de cinema, foi o
que de alguma forma me entusiasmou ainda mais para música, porque ali está tudo
junto: som e imagem, interpretação no trabalho artístico, a história e seu
registro a criatividade de seus diretores, toda uma equipe trabalhando em
conjunto. É quando percebo que a música tem também papel fundamental, ressalta
todo o filme e é ressaltada por sua inclusão e se eterniza.
Cearense,
saiu do seu estado, voltou a morar lá. Algumas canções suas são referências
para o cenário do Ceará, como “Terral”, que foi feita em São Paulo movido pela
saudade, morando no Rio de Janeiro já a muito tempo, você se sente próximo de
sua terra?
Vou lá sempre que tenho
oportunidade, em shows ou para movimentar projetos. Tenho ligação atávica com
minha terra, uma emoção especial, o sentimento de pertença, reescutar o sotaque
e suas musicalidades, rever amigos e fazer outros novos, observar o crescimento
da cidade, a culinária característica, são diversas formas de reintegração ao
meu local de origem, a qual prezo muito e respeito sempre e quero honrar como
filho deste lugar.
Quarenta
anos de carreira. Nessa jornada o que mais te marcou?
Tudo marca de alguma
forma, pessoalmente não divido em décadas minha existência e música, estou
caminhando, cada fase e momento tem sua importância e significado, existe no
entanto a tendência quase geral em entender o relógio do planeta, por décadas
ou séculos. Mas no meu pensar existe a vida, o criador, a arte, e todas outras
formas de existências, e para mim, tudo é atemporal.
O
que o teu fã vai encontrar no DVD que você lançou: 40 anos de canção?
São dois DVDs, o
primeiro, contêm na íntegra o show que realizei em Fortaleza com 30 músicas
representativas de diversas fases destes 40 anos. Com uma banda de 10
excelentes músicos, chamei também alguns convidados especiais para cantarmos
juntos algumas músicas: Rodger Rogério, Teti, Chico César, Mona Gadelha, Carol
Oliveira. O segundo, é um documentário que aborda principalmente o início
artístico e a década de 70, fartamente ilustrado com entrevistas depoimentos e
fotos de várias épocas e músicas. Também espero que descubram outras coisas e
fatos que não percebi ao tecer estes comentários.
Abraços à todos.