domingo, 27 de março de 2016

CLÁUDIA ALENCAR

Luz e paz em um único ser

Por Cássio Cavalcante/ fotos: internet


Com sua beleza, talento e inteligência segue a vida respeitando o corpo e alma, acreditando que a poesia nos torna seres melhores.   A atriz e poeta Cláudia Alencar é uma mulher de bem consigo mesma por isso a luz que irradia nos faz bem.

Que tipo de teatro você gosta de fazer?

Adoro fazer os clássicos, especialmente Shakespeare, Moliére e Ibsen. Mas uma boa comédia é deliciosa, porque ouvir as risadas do público é saúde para todos.

A novela na televisão é um dos principais instrumentos de divulgação do artista nacional. Qual a sua análise deste veículo?

A televisão no planeta está mudando com as séries e canais tipo Netflix. Haverá novos formatos que atendam melhor o público e aos criadores. Estamos no momento crucial de transição. A novela ainda tem grande audiência, mas nada comparável há 20 anos atrás quando o ibope era 70% e chegava a 90%. Hoje o ibope é de 20%? O público emigrou para outros canais. Mas sem dúvida nenhuma as novelas divulgam o ator nacional, mas ator pode atuar em teatro, filmes, seriados, e Tv aberta, Estamos num momento muito especial.

Você é uma mulher bonita, sensual e talentosa. Acredito que realizada nos caminhos que escolheu. Na sua história você passou pelo que pior a humanidade pode oferecer, a tortura. O que é para um ser humano ser torturado?

Se sentir impotente. Frágil. Arrasado. E conviver com as dores terríveis que jamais cessam. Se cessam as feridas a dor delas na alma jamais cicatrizam.

Em tempos tão caóticos nas relações e comunicações humanas, eu diria abissais. Qual a importância da poesia para um mundo melhor?

A poesia poderia nos trazer o divino para a terra, mas ninguém mais a lê. Os poetas estão minguando... Na semana de arte moderna se respirava arte, nos tempos de Drummond e Vinícius o povo se alegrava e se compreendia melhor, compreendia seus sentimentos amorosos e anímicos através dos poetas que são os filósofos modernos. A poesia nos ajuda a sermos melhores seres humanos. Hoje não vemos profundamente em quase nada. Somos os últimos rebeldes.

O que te inspira? O que te move como poeta?

Escrevo todos os dias... Como as antigas mulheres faziam panos todos os dias... Quando tenho tempo, quando posso me permitir relaxar e contemplar eu releio meus escritos e começo a recortá-los como se fosse fazer um traje de gala. Fico imersa nessa onda poeta e até chego a acordar de madrugada despertada pela poesia... É pura transição diária.

O teu relacionamento com você mesma, com o teu corpo, que influencia tem nas artes que você produz?

Meu corpo é sagrado. Cuido dele, porque cuido da minha alma. Quero que ela esteja saudável, para poder me dar e oferecer felicidade e arte. Minha alma é meu instrumento de trabalho que se aloja do meu corpo. Ele apodrecerá, ela jamais!

A paixão e a razão em uma vida são correntes paralelas ou distintas que seguem separadamente?  

Este é o dilema do ser humano... Não deixar que nenhuma seja a dona perene de nossos atos e pensamentos. Aristóteles fala da "justa medida" que o ser humano deve ter ao controlar essas duas rainhas de nosso ser. As duas devem reinar de mãos dadas, nunca separadamente... Mas é sempre uma luta permanente para equilibra-las.

Autora de quatro livros de poesia e dois de pesquisa. Como você vê o futuro do livro físico, impresso no papel?


Sabe por que acredito neles? Porque as luzes do I PADS, I PUDS, AIS TUDO são fortes para nossos olhos ancestrais.





www.robsonsampaio.com.br

domingo, 20 de março de 2016

NANDO CORDEL

Uma vida pontuada pela música e pela paz

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

No início fazia músicas difíceis, harmonias sofisticadas. Até um amigo lhe dar um conselho para ser mais popular na linha de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Mais que um conselho uma luz. Isso bastou para Nando Cordel ser um cantor campeão de vendas e um dos compositores mais solicitado de nossa Música Popular Brasileira.


No início de sua carreira você recebeu um conselho de Michael Sullivan que foi fundamental. Qual foi essa dica?

Eu tinha feito dois LP’s na época, e tinha sido expulso da gravadora porque não vendeu muito. O primeiro vendeu dois um para mim e outro para minha mãe. O segundo só vendeu um porque eu comprei. Eu já estava desistindo querendo voltar para casa. Aí uma outra empresa me chamou para gravar um disco. Minhas músicas eram complicadas. Eu escrevia as coisas mais sofisticadas. Tipo: “ O vento não tem porteira”, “O sonho não tem curral” e “Chuva não tem barreira nem sol tem quintal”. Era uma poesia muito séria. As harmonias eram diferentes. Eu não queria fazer uma coisa simples. Eu acho que a música veio para o planeta para embelezar a alma. Fazer o Bem. Eu não queria fazer qualquer nota correndo aí. Eu disse assim para o cara: “Eu vou desistir, vou correr, vou embora”. Aí ele me chamou para fazer uma terceira tentativa. E essa também era um disco sofisticado demais. Com uma música chamada “O broto da papoula”. Que era cheia de harmonia, cheia de poesia. Uma hora que eu estava esperando para entrar no estúdio, o Michael Sullivan chegou e sentou, ficamos conversando. Ele me perguntou por que eu fazia um disco assim. Disse que eu poderia fazer um mais popular igual a Dominguinhos e Luiz Gonzaga. Aí eu gostei. Falei: Tá bom. Ele continuou: Se você quiser fazer assim eu te levo para uma gravadora que estou assumindo como diretor artístico. Eu concordei: Tá legal. Ele me colocou em um hotel. Eu fiz quatorze músicas. Na outra semana mostrei para ele. Com todas fizemos um disco que arrebentou no Brasil inteiro. Foi esse o conselho que Michael me deu. Conselho e luz.

Um dos maiores clássicos da Música Popular Brasileira é a música “De volta pro aconchego”. Dominguinhos participou do processo de criação. Como foi a história dessa canção?

A história dessa canção é o seguinte. Foi quando eu fiz com Dominguinhos uma música: “Isso aqui está bom demais”. Aí na sequência a gente estava fazendo a melodia de “De volta pro aconchego”. Ele fez e perguntou o que eu achava. Disse: Ótimo. Na realidade na época era um baião. Em um dia que estávamos gravando com Dominguinhos e Chico Buarque, a noite quando Dominguinhos estava comendo disse: Nando estou com saudade de casa, briguei com a mulher. Falei: Eita, vou fazer essa música agora. Aquela melodia que você tinha me dado. Eu comecei a escrever no guardanapo, essa música na realidade é a história dele. Aí eu fiz: “Estou de volta pro aconchego/ trazendo na mala da sanfona muita saudade/ querendo da mulher um sorriso sincero e um abraço”. Essa música saiu em três minutos. A gente mostrou para Elba, virou um clássico. Eu recebi um comunicado agora que as dez músicas populares brasileiras, tem essa da gente e tem outra também que a gente fez: “Gostoso demais”. Que é gratificante demais.

Em decorrência do aniversário de Dominguinhos, você fez uma postagem no facebook e o chamou de pai. Qual a importância de Dominguinhos para Nando Cordel?

Domiguinhos, eu chamo ele de pai. Passei quase trinta anos compondo com ele, viajando, fazendo música. Era um cara que não tinha inveja, não tinha ciúme, não tinha ganancia. Só tinha humildade e queria ver as pessoas felizes. Foi considerado um mestre por todo o mundo. Eu o chamava de pai pelo seguinte, ele me ligava toda semana para saber como eu estava. O cara ligar só para saber como você está! Isso é mais que um pai. Luiz Gonzaga dizia: “Nando, Dominguinhos só falta te colocar no colo, te amar. Eu já disse a ele: Nunca deixe Nando. E ele respondeu: E eu sou doido rapaz”. Ele tinha uma relação muito íntima com a gente. Tinha esse carinho comigo. Luiz Gonzaga só me ligava dia treze de dezembro que é o meu aniversário e o dele também. Mas Dominguinhos ligava toda semana. Certa vez ele passou por Recife, ia tocar em Caruaru. E me perguntou: “Tá fazendo o quê?” Eu respondi que nada. Ele então disse: “Vamos comigo”. Aí eu fui. Contei a ele que tinha comprado uma casa e tinha que fazer bastante show para pagar, porque o negócio estava apertadinho. Ele disse: “Não se preocupe, se faltar dinheiro você me liga”. Aí eu chorei que só. Como não chamar de pai uma pessoa como essa.

O frevo é a música pernambucana reconhecida em todo o nosso planeta. Como é o seu relacionamento com esse ritmo?

Eu fiz muito frevo na minha vida, mas alguns não lancei. Eu fiz um para mim que tocou bastante. Depois fiz um para a Xuxa. Aliás, fiz para mim, mas quem pegou foi a Xuxa. Estourou aqui no Recife, na Bahia, em tudo que é canto e depois no mundo todo. Que é: “Hoje é dia de folia/ meu coração que conquistar você/ e cair na brincadeira”. Depois eu fiz outro, mas não sou muito chegado a fazer frevo. Até porque o frevo não tem um respaldo de tocar no Brasil. Por sinal toca mal em Pernambuco. Na terra do frevo as rádios não tocam infelizmente. Toca brega que só a peste. Sertanejo, mas a música da gente Pernambuco não toca, que crueldade. Um dia eu estava em uma comunidade e as pessoas me falando de frevo e eu fiz um: “O frevo tá no sangue do povo/ No morro, na rua/ O frevo deixa a gente louco/ Leve, afoito/ Atiça a gente se amar/ Não dá pra segurar/ Não dá pra segurar/ Quero mais/ Quero mais/ Pra me derreter...” Essa música é um clássico do carnaval de Pernambuco. Eu gravei, depois a Elba gravou. Toca hoje em todos os lugares. A minha relação com o frevo é isso.  Tenho até vontade de fazer um disco de frevo, mas fico um pouquinho triste por não ter onde tocar. Mas tenho uma relação boa com o frevo.

A banda que te acompanha mundo afora é composta pelos teus filhos. Como foi que aconteceu essa sintonia entre vocês para trabalhar juntos?

Eu tinha uma banda que era considerada a melhor do Recife, com os melhores músicos. Um belo dia meus filhos começaram a crescer e querer mesada. Eu disse: “Vocês vão ter que se virar. Tem alí dois violões uma bateria, aprendam que vocês vão tocar comigo e com outras pessoas”. Eles começaram a aprender, eu falei para eles que tinha pintado uma turnê nos Estados Unidos.  Se tiver tocando legal vocês já vão viajar comigo, vinte dias lá. Aí os cabras endoidaram, era de manhã, de tarde e de noite, nem dormiam para aprender. Em cinco meses já sabiam as vinte músicas que eu iria tocar lá. Foi a primeira vez que foram tocar comigo. Meios capengas, mas eles não são bestas são uns cabras espertos levaram as coisas gravadas no Samp. Quando não sabiam o Samp tocava no lugar deles. Foi um sucesso muito grande. E a partir daí eles ficaram. Mas agora de um tempo pra cá estão me deixando. Todos virando artistas. Fazendo grupos, tem a Tribo Cordel. Agora vou ter que voltar para os músicos. Vou arrumar um time de músicos para tocar comigo.

Você tem um compromisso com a paz. Como aconteceu esse engajamento com essa causa tão nobre?

A minha mãe sempre falava comigo: “Meu filho a vida não existe sem paz, sem amor, sem você escutar os outros. Ela pode até ser aparentemente boa. Esnobar na sociedade, ser uma pessoa legal, ter um carro legal. Mas no fundo, no fundo você vai dormir sozinho. Vai dormir você com você. Você tem que se cuidar e só quem cura é a tranquilidade a paz interior ”.  Ela sempre me dizia isso e eu incorporei para mim.  Disse ainda: “Onde você for leve um pouquinho disso”. No primeiro disco que fiz sucesso comecei a falar pela paz. Aí fui convidado pelo mundo todo para participar de movimentos. Fiz um CD, o primeiro disco que fiz todo mundo sabe: “Abre a porta e deixe entrar/ Essa paz que faz o amor imenso...”.  Essa virou um hino. Depois eu fiz a música: “A paz no mundo começa em mim/ Se eu tenho amor com certeza sou feliz/ Se eu faço o bem a meu irmão/ Tenho a grandeza dentro do meu coração...”. Essa música se espalhou muito mais rápido do que as outras. É cantada em todas as escolas do mundo. Agora, recentemente eu recebi um vídeo da Irlanda, é o maior sucesso nas escolas lá. O sucesso é na parte social onde querem fazer um mundo melhor. Então daí eu comecei a falar de paz, olhar pela paz, fiz mantra. Um trabalho muito grande. Isso seria o que? Uma gratidão. Um agradecimento a Papai do Céu por me dar tanta coisa boa. Sou a favor da paz e acho que o mundo só é melhor com a paz.

Sobre o seu livro “O cordel da vida”, agora que ele foi lançado, vem atendendo as suas expectativas?

Muito mais. Ele ainda não está lançado oficialmente, lancei na internet. Mas aí a gente vai começar a lançar nas livrarias e fazer aquela tarde de autógrafos. Já saiu a primeira edição praticamente esgotada. É um livro que não tem pretensão nenhuma, é um livro de cordel, sempre ligado as pessoas a melhorar de vida. Um convite a meditar na paz. Eu ia fazer umas poesias uns cordéis mais sofisticados para fazer as pessoas pensar. Minha mulher e meus filhos disseram: “Pai faça simples”. É um livro muito simples, um cordel muito simples. Mas que tem um objetivo muito nobre que é de fazer mudar um pouquinho a vida. Se algum texto daquele calhar com você com sua vida, você pode dá uma mudada.  Então de uma forma muito bacana as coisas que eu faço tem uma repercussão muito grande.

Você foi o grande homenageado da VI Flimar, Festa Literária de Marechal Deodoro. Como foi essa tua emoção?

Aquela homenagem em Alagoas foi fantástica. Eu, Nando Cordel ser homenageado por uma cidade inteira. Eu sou um simples compositor, mas achei um negócio tão grande, tão grande. A cidade inteira com fotografias minhas. Uma coisa tão forte, as crianças cantando. Procissão no meio da rua cantado minhas músicas. No meio da rua eu comecei a chorar. Passei três dias lá e chorava. Tanta gente bacana para ser homenageada e os caras me escolheram dessa forma. Eu achei muito encantador. Eu nunca vi um negócio desses na minha vida e eu fiquei emocionado demais, a minha vida inteira. Marcou profundamente a minha vida.

Quando eu falo o nome de Amelinha o que a primeira coisa que te vem à cabeça?

Uma das melhores cantoras do mundo.






domingo, 13 de março de 2016

ZÉ PEDRO

Um Guardião de Nossa Música

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Com seu comportamento irreverente é um dos nomes mais coerentes dentro do movimento da cena da Música Popular Brasileira. O selo que criou, Joia Moderna, já lançou discos de Fafá de Belém, Célia, Amelinha, Claudinha Telles. Zé Pedro é um porto seguro para nossa querida MPB.


Você iniciou sua carreira no “Resumo da ópera” no Rio de janeiro, por que a mudança para São Paulo?

Ricardo Amaral achou que seria interessante inaugurar o Resumo da Ópera de São Paulo comigo como DJ. Completamente apaixonado pela cidade nunca mais voltei. 

 Hoje como você analisa a sua participação no “Superpop” com Adriana Galisteu?

Há divergências (rsrs). Às vezes penso que foi  importante, às vezes acho que eu era uma espécie de Louro José da Ana Maria Braga. 

 O seu programa “Rebobina” no canal Viva está acontecendo dentro de suas expectativas?

Não havia nenhuma expectativa de minha parte. Já haviam se passado 12 anos desde minha última participação na TV e foi com surpresa que recebi o convite da diretora Tatiana Issa para fazer o programa que já está em sua segunda temporada.

 Como surgiu o selo Jóia Moderna dedicado as cantoras brasileiras? E qual o retorno desse projeto?

Cansado do descaso das grandes gravadoras com relação a alguns artistas e projetos, resolvi fazer justiça com as próprias mãos trazendo de volta cantoras que há muito tempo não gravavam e lançando tributos inusitados.

 E sobre seu livro “Meus discos e nada mais” pela editora Jabuticaba, aconteceu como você idealizou?

Devido ao meu lado de contador de histórias, vários amigos me cobravam um livro e decidi começar pelos discos que fizeram a minha cabeça nesses anos todos e que com certeza se confundem com a minha própria vida, já que a música é minha lembrança mais remota da infância. Aos sete anos já tinha meus primeiros LP's.

 Sobre os álbuns que você lançou: “Música para dançar”, “Quero dizer a que vim” e “essa moça tá diferente”, o que você tem a dizer?

Nos anos noventa os jovens que frequentavam as discotecas tinham muito preconceito com a música brasileira. Decidi então começar a produzir remixes de clássicos da MPB para "enganar" essa turma. A coisa ficou séria quando lancei esses três discos por ser um dos únicos DJ's a ter autorização dos artistas para lançar meus remixes de forma comercial. 

 E das suas participações nos álbuns de Marina Lima, Gal Costa, Fernanda Porto e Ana Carolina, o que você nos conta?

De fã absoluto aos poucos fui me transformando em amigo de muitas cantoras que passaram a me convidar para produzir remixes de suas canções 

Das novas ideias, os novos projetos, o que você pode nos adiantar?

 A joia moderna acaba de fazer 5 anos com 36 discos lançados, um orgulho para mim. Paralelo a isso criei o Canal da Véia no YouTube onde prossigo colocando esse meu lado histriônico e bem humorado que o público adora, pra fora. 






domingo, 6 de março de 2016

FREDERICO MENDES

Uma vida que se faz na fotografia

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

O cara que melhor fotografou Nara Leão. Como se isso não bastasse foi correspondente em todo o planeta onde tivesse uma guerra, terremoto ou mesmo um desfile de modas lá estava ele e sua inseparável câmera fotográfica. Frederico Mendes vai além do fotografar, ele retrata a vida.


Quando a fotografia chegou no garoto que tanto gostou do Filme “Hair”?

Eu desenho desde os dois anos. Cheguei a ter aulas de pintura até os dez anos. Sempre achei que seria pintor, ilustrador ou cartunista, além de escritor, poeta e jornalista. Estudei Jornalismo na PUC Rio e além disso escrevia e pintava diariamente. Mas aos 22 anos comecei uma fossa profunda com o término do meu primeiro amor com a primeira namorada e não conseguia mas pintar ou escrever. Foi um bloqueio criativo, não conseguia criar nada além da minha dor crescente. Tinha uma certa grana ganha em um estágio burocrático em uma Fundação fazendo boletins informativos e estava na dúvida entre ir para a Europa ser um mochileiro andarilho ou comprar uma motocicleta e sair à espera de uma curva que me levasse para longe daquele insensato mundo em que vivia. Mas em uma tarde de começo de verão passei por uma loja de fotografia no centro do Rio e vi uma câmera na vitrine. Juro que ela piscou seu único olho, digo, sua lente para mim. Foi amor à primeira vista, comprei aquela Pentax usada no ato. Mas como não sabia nada de fotografia, pedi para o vendedor colocar o filme para mim e saí fotografando o que achava interessante pela cidade. As fotos saíram todas escuras mas comecei a fotografar, revelar e aprender com meus erros e acertos. Com o passar dos anos, por causa daquela Pentax (e de outras câmeras Nikons, Leicas etc) já fui várias vezes a Europa, África, Asia, etc. Nunca comprei a tal motocicleta suicida, mas várias bicicletas. Ah… e também por causa dessas câmeras me casei quatro vezes — conheci todas as minhas mulheres fotografando. Aliás, devo ser uma pessoa bem desinteressante sem uma máquina pendurada no pescoço...

Como foi trabalhar na extinta e memorável revista “Manchete”?

Para um rapaz de 24 anos era o paraíso na Terra. Trabalhava ao lado de antigos ídolos como Walter Firmo, Claus Meyer, Sebastião Barbosa e Orlando Abrunhosa, o melhor fotógrafo de futebol do planeta — autor da famosa foto do Pelé socando o ar cercado de Tostão e Jairzinho na Copa de 1970. Pouco tempo depois fui enviado para a sucursal de Nova York e dali fui conhecer o resto do mundo, mas nunca para lugares onde queria ir, mas para onde uma guerra, um terremoto, um vulcão ou uma Olimpíada ou desfile de moda aconteciam. Saia de casa sem saber se iria voltar de noite ou em três, quatro semanas. Podia ir direto da redação para algum confim do universo onde algo acontecia.

O que mais lhe acrescentou sendo correspondente da “Manchete”, em Nova York e Paris?

Quando comecei na profissão nos anos 1970 em plena ditadura militar, fotografar no Brasil era bem perigoso: fui detido algumas vezes por estar fotografando em áreas chamadas de "segurança nacional" como estações de trens ou até na frente de bancos. Gosto de fotografar anônimos nas ruas e isso estava me limitando. Era cabeludo, barbudo e tinha cara de subversivo. Em Nova York podia fotografar livremente, sem censura e vigilância da polícia. Tive também a oportunidade de ver John Lennon tocar no seu último concerto no Madison Square Garden, Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel, todos meus ídolos musicais mas, acredite, um dos melhores shows que vi nessa época foi o do brasileiríssimo Sergio Mendes e sua ótima banda. Outra coisa: pude fotografar várias passeatas de protesto contra a Guerra do Vietnam e o (des)governo do então presidente Richard Nixon.

Falando em ser correspondente, nos conte de sua experiência em ser correspondente de guerra na África (Angola e Moçambique), no Oriente Médio (Líbano e israel) e na América Central (Nicarágua e El Salvador)? 

Quando era jovem achava que iria morrer levando um tiro em algumas das guerras em que estive. Com o passar dos anos (e com a vida mais estável que passei a ter) comecei a sentir medo. Tinha família, filho, e não podia ser tão egoísta de fazer algo perigoso só porque me dava prazer. Mas por sorte e proteção do meu anjo da guarda nunca fui ferido no meio de tantas batalhas, com exceção de um tiro que levei cobrindo uma passeata no Rio em 2013.  A minha câmera recebeu o impacto e como ela estava na minha cara atingiu o meu nariz e foi aquela sangueira toda. Aliás, eu e a câmera passamos bem e ela continua funcionando.

Você fotografou capas de discos para artistas conceituados como Roberto Carlos, James Taylor, Caetano Veloso, Raul Seixas, Zé Ramalho, Gal Costa, Martinho da Vila, Nara Leão, Amelinha, e Frank  Sinatra entre muitos outros. As capas de discos hoje tem o mesmo impacto daqueles tempos do vinil?

Na verdade, os discos não têm mais o impacto daqueles tempos nesta era de internet, mp3, piratarias e arte livre e gratuita. Mas fazer uma capa de LP era muito gostoso. Primeiro que as capas tinham 30 centímetros, enquanto o CD tem apenas 12 .Depois era gostoso ter a liberdade para criar a capa, coisa que a publicidade não lhe concedia.

Você foi um dos fotógrafos que melhor fotografou Nara Leão, a musa da bossa nova e de outras bossas, foi amigo da cantora de “A Banda”. O que mais você guardou no coração da doce musa?

A sua amizade e doçura. Ela era profundamente generosa com os amigos.  Quando sabia que eu estava triste pelo fim de algum casamento, ela me convidava para lanchar em sua casa e depois me perguntava: — O que você quer ouvir eu cantar?
A voz dela acabava com qualquer fossa...

Em relação ao artista plástico, qual tua maior realização na pintura de um quadro?

Quando as pessoas querem comprar a peça. Mas, como não gosto de me desfazer dos meus quadros, cobro caro para ver se o cliente desiste, apesar de certas vezes eu acabo topando:  ora, o artista vive da sua arte e como diz o velho bordão popular  “quem trabalha de graça é relógio" apesar de que, hoje em dia, relógios usam baterias que não são de graça.

No tocante a literatura, o que move o escritor Frederico Mendes?


Obras que me emocionam ou que me fazem pensar, obras que me fazem desejar ser uma pessoa mais digna, mais útil para sociedade e não um ser que só pensa em si mesmo. Gosto de Monteiro Lobato (meu primeiro mestre), Rosário Fusco (que conheci pessoalmente e me dava livros para ler quando eu tinha dez anos — nossas famílias eram amigas) e Emile Zola— depois de ler Germinal virei um ser de esquerda para sempre. Mas como aprendi em um velho exemplar da caretíssima revista americana Seleções do Readers Digest "todo jovem é um incendiário, mas ao envelhecer vira auxiliar voluntário do Corpo de Bombeiros". Pois é, ando apagando vários incêndios ultimamente, mas ainda toco fogo nas coisas de que não gosto...