domingo, 20 de março de 2016

NANDO CORDEL

Uma vida pontuada pela música e pela paz

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

No início fazia músicas difíceis, harmonias sofisticadas. Até um amigo lhe dar um conselho para ser mais popular na linha de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Mais que um conselho uma luz. Isso bastou para Nando Cordel ser um cantor campeão de vendas e um dos compositores mais solicitado de nossa Música Popular Brasileira.


No início de sua carreira você recebeu um conselho de Michael Sullivan que foi fundamental. Qual foi essa dica?

Eu tinha feito dois LP’s na época, e tinha sido expulso da gravadora porque não vendeu muito. O primeiro vendeu dois um para mim e outro para minha mãe. O segundo só vendeu um porque eu comprei. Eu já estava desistindo querendo voltar para casa. Aí uma outra empresa me chamou para gravar um disco. Minhas músicas eram complicadas. Eu escrevia as coisas mais sofisticadas. Tipo: “ O vento não tem porteira”, “O sonho não tem curral” e “Chuva não tem barreira nem sol tem quintal”. Era uma poesia muito séria. As harmonias eram diferentes. Eu não queria fazer uma coisa simples. Eu acho que a música veio para o planeta para embelezar a alma. Fazer o Bem. Eu não queria fazer qualquer nota correndo aí. Eu disse assim para o cara: “Eu vou desistir, vou correr, vou embora”. Aí ele me chamou para fazer uma terceira tentativa. E essa também era um disco sofisticado demais. Com uma música chamada “O broto da papoula”. Que era cheia de harmonia, cheia de poesia. Uma hora que eu estava esperando para entrar no estúdio, o Michael Sullivan chegou e sentou, ficamos conversando. Ele me perguntou por que eu fazia um disco assim. Disse que eu poderia fazer um mais popular igual a Dominguinhos e Luiz Gonzaga. Aí eu gostei. Falei: Tá bom. Ele continuou: Se você quiser fazer assim eu te levo para uma gravadora que estou assumindo como diretor artístico. Eu concordei: Tá legal. Ele me colocou em um hotel. Eu fiz quatorze músicas. Na outra semana mostrei para ele. Com todas fizemos um disco que arrebentou no Brasil inteiro. Foi esse o conselho que Michael me deu. Conselho e luz.

Um dos maiores clássicos da Música Popular Brasileira é a música “De volta pro aconchego”. Dominguinhos participou do processo de criação. Como foi a história dessa canção?

A história dessa canção é o seguinte. Foi quando eu fiz com Dominguinhos uma música: “Isso aqui está bom demais”. Aí na sequência a gente estava fazendo a melodia de “De volta pro aconchego”. Ele fez e perguntou o que eu achava. Disse: Ótimo. Na realidade na época era um baião. Em um dia que estávamos gravando com Dominguinhos e Chico Buarque, a noite quando Dominguinhos estava comendo disse: Nando estou com saudade de casa, briguei com a mulher. Falei: Eita, vou fazer essa música agora. Aquela melodia que você tinha me dado. Eu comecei a escrever no guardanapo, essa música na realidade é a história dele. Aí eu fiz: “Estou de volta pro aconchego/ trazendo na mala da sanfona muita saudade/ querendo da mulher um sorriso sincero e um abraço”. Essa música saiu em três minutos. A gente mostrou para Elba, virou um clássico. Eu recebi um comunicado agora que as dez músicas populares brasileiras, tem essa da gente e tem outra também que a gente fez: “Gostoso demais”. Que é gratificante demais.

Em decorrência do aniversário de Dominguinhos, você fez uma postagem no facebook e o chamou de pai. Qual a importância de Dominguinhos para Nando Cordel?

Domiguinhos, eu chamo ele de pai. Passei quase trinta anos compondo com ele, viajando, fazendo música. Era um cara que não tinha inveja, não tinha ciúme, não tinha ganancia. Só tinha humildade e queria ver as pessoas felizes. Foi considerado um mestre por todo o mundo. Eu o chamava de pai pelo seguinte, ele me ligava toda semana para saber como eu estava. O cara ligar só para saber como você está! Isso é mais que um pai. Luiz Gonzaga dizia: “Nando, Dominguinhos só falta te colocar no colo, te amar. Eu já disse a ele: Nunca deixe Nando. E ele respondeu: E eu sou doido rapaz”. Ele tinha uma relação muito íntima com a gente. Tinha esse carinho comigo. Luiz Gonzaga só me ligava dia treze de dezembro que é o meu aniversário e o dele também. Mas Dominguinhos ligava toda semana. Certa vez ele passou por Recife, ia tocar em Caruaru. E me perguntou: “Tá fazendo o quê?” Eu respondi que nada. Ele então disse: “Vamos comigo”. Aí eu fui. Contei a ele que tinha comprado uma casa e tinha que fazer bastante show para pagar, porque o negócio estava apertadinho. Ele disse: “Não se preocupe, se faltar dinheiro você me liga”. Aí eu chorei que só. Como não chamar de pai uma pessoa como essa.

O frevo é a música pernambucana reconhecida em todo o nosso planeta. Como é o seu relacionamento com esse ritmo?

Eu fiz muito frevo na minha vida, mas alguns não lancei. Eu fiz um para mim que tocou bastante. Depois fiz um para a Xuxa. Aliás, fiz para mim, mas quem pegou foi a Xuxa. Estourou aqui no Recife, na Bahia, em tudo que é canto e depois no mundo todo. Que é: “Hoje é dia de folia/ meu coração que conquistar você/ e cair na brincadeira”. Depois eu fiz outro, mas não sou muito chegado a fazer frevo. Até porque o frevo não tem um respaldo de tocar no Brasil. Por sinal toca mal em Pernambuco. Na terra do frevo as rádios não tocam infelizmente. Toca brega que só a peste. Sertanejo, mas a música da gente Pernambuco não toca, que crueldade. Um dia eu estava em uma comunidade e as pessoas me falando de frevo e eu fiz um: “O frevo tá no sangue do povo/ No morro, na rua/ O frevo deixa a gente louco/ Leve, afoito/ Atiça a gente se amar/ Não dá pra segurar/ Não dá pra segurar/ Quero mais/ Quero mais/ Pra me derreter...” Essa música é um clássico do carnaval de Pernambuco. Eu gravei, depois a Elba gravou. Toca hoje em todos os lugares. A minha relação com o frevo é isso.  Tenho até vontade de fazer um disco de frevo, mas fico um pouquinho triste por não ter onde tocar. Mas tenho uma relação boa com o frevo.

A banda que te acompanha mundo afora é composta pelos teus filhos. Como foi que aconteceu essa sintonia entre vocês para trabalhar juntos?

Eu tinha uma banda que era considerada a melhor do Recife, com os melhores músicos. Um belo dia meus filhos começaram a crescer e querer mesada. Eu disse: “Vocês vão ter que se virar. Tem alí dois violões uma bateria, aprendam que vocês vão tocar comigo e com outras pessoas”. Eles começaram a aprender, eu falei para eles que tinha pintado uma turnê nos Estados Unidos.  Se tiver tocando legal vocês já vão viajar comigo, vinte dias lá. Aí os cabras endoidaram, era de manhã, de tarde e de noite, nem dormiam para aprender. Em cinco meses já sabiam as vinte músicas que eu iria tocar lá. Foi a primeira vez que foram tocar comigo. Meios capengas, mas eles não são bestas são uns cabras espertos levaram as coisas gravadas no Samp. Quando não sabiam o Samp tocava no lugar deles. Foi um sucesso muito grande. E a partir daí eles ficaram. Mas agora de um tempo pra cá estão me deixando. Todos virando artistas. Fazendo grupos, tem a Tribo Cordel. Agora vou ter que voltar para os músicos. Vou arrumar um time de músicos para tocar comigo.

Você tem um compromisso com a paz. Como aconteceu esse engajamento com essa causa tão nobre?

A minha mãe sempre falava comigo: “Meu filho a vida não existe sem paz, sem amor, sem você escutar os outros. Ela pode até ser aparentemente boa. Esnobar na sociedade, ser uma pessoa legal, ter um carro legal. Mas no fundo, no fundo você vai dormir sozinho. Vai dormir você com você. Você tem que se cuidar e só quem cura é a tranquilidade a paz interior ”.  Ela sempre me dizia isso e eu incorporei para mim.  Disse ainda: “Onde você for leve um pouquinho disso”. No primeiro disco que fiz sucesso comecei a falar pela paz. Aí fui convidado pelo mundo todo para participar de movimentos. Fiz um CD, o primeiro disco que fiz todo mundo sabe: “Abre a porta e deixe entrar/ Essa paz que faz o amor imenso...”.  Essa virou um hino. Depois eu fiz a música: “A paz no mundo começa em mim/ Se eu tenho amor com certeza sou feliz/ Se eu faço o bem a meu irmão/ Tenho a grandeza dentro do meu coração...”. Essa música se espalhou muito mais rápido do que as outras. É cantada em todas as escolas do mundo. Agora, recentemente eu recebi um vídeo da Irlanda, é o maior sucesso nas escolas lá. O sucesso é na parte social onde querem fazer um mundo melhor. Então daí eu comecei a falar de paz, olhar pela paz, fiz mantra. Um trabalho muito grande. Isso seria o que? Uma gratidão. Um agradecimento a Papai do Céu por me dar tanta coisa boa. Sou a favor da paz e acho que o mundo só é melhor com a paz.

Sobre o seu livro “O cordel da vida”, agora que ele foi lançado, vem atendendo as suas expectativas?

Muito mais. Ele ainda não está lançado oficialmente, lancei na internet. Mas aí a gente vai começar a lançar nas livrarias e fazer aquela tarde de autógrafos. Já saiu a primeira edição praticamente esgotada. É um livro que não tem pretensão nenhuma, é um livro de cordel, sempre ligado as pessoas a melhorar de vida. Um convite a meditar na paz. Eu ia fazer umas poesias uns cordéis mais sofisticados para fazer as pessoas pensar. Minha mulher e meus filhos disseram: “Pai faça simples”. É um livro muito simples, um cordel muito simples. Mas que tem um objetivo muito nobre que é de fazer mudar um pouquinho a vida. Se algum texto daquele calhar com você com sua vida, você pode dá uma mudada.  Então de uma forma muito bacana as coisas que eu faço tem uma repercussão muito grande.

Você foi o grande homenageado da VI Flimar, Festa Literária de Marechal Deodoro. Como foi essa tua emoção?

Aquela homenagem em Alagoas foi fantástica. Eu, Nando Cordel ser homenageado por uma cidade inteira. Eu sou um simples compositor, mas achei um negócio tão grande, tão grande. A cidade inteira com fotografias minhas. Uma coisa tão forte, as crianças cantando. Procissão no meio da rua cantado minhas músicas. No meio da rua eu comecei a chorar. Passei três dias lá e chorava. Tanta gente bacana para ser homenageada e os caras me escolheram dessa forma. Eu achei muito encantador. Eu nunca vi um negócio desses na minha vida e eu fiquei emocionado demais, a minha vida inteira. Marcou profundamente a minha vida.

Quando eu falo o nome de Amelinha o que a primeira coisa que te vem à cabeça?

Uma das melhores cantoras do mundo.






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