Uma vida
pontuada pela música e pela paz
Por Cássio
Cavalcante/ Fotos: internet
No início fazia músicas difíceis,
harmonias sofisticadas. Até um amigo lhe dar um conselho para ser mais popular
na linha de Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Mais que um conselho uma luz. Isso
bastou para Nando Cordel ser um cantor campeão de vendas e um dos compositores
mais solicitado de nossa Música Popular Brasileira.
No início de
sua carreira você recebeu um conselho de Michael Sullivan que foi fundamental.
Qual foi essa dica?
Eu tinha feito dois LP’s na
época, e tinha sido expulso da gravadora porque não vendeu muito. O primeiro
vendeu dois um para mim e outro para minha mãe. O segundo só vendeu um porque
eu comprei. Eu já estava desistindo querendo voltar para casa. Aí uma outra empresa
me chamou para gravar um disco. Minhas músicas eram complicadas. Eu escrevia as
coisas mais sofisticadas. Tipo: “ O vento não tem porteira”, “O sonho não tem
curral” e “Chuva não tem barreira nem sol tem quintal”. Era uma poesia muito
séria. As harmonias eram diferentes. Eu não queria fazer uma coisa simples. Eu
acho que a música veio para o planeta para embelezar a alma. Fazer o Bem. Eu
não queria fazer qualquer nota correndo aí. Eu disse assim para o cara: “Eu vou
desistir, vou correr, vou embora”. Aí ele me chamou para fazer uma terceira
tentativa. E essa também era um disco sofisticado demais. Com uma música
chamada “O broto da papoula”. Que era cheia de harmonia, cheia de poesia. Uma
hora que eu estava esperando para entrar no estúdio, o Michael Sullivan chegou
e sentou, ficamos conversando. Ele me perguntou por que eu fazia um disco
assim. Disse que eu poderia fazer um mais popular igual a Dominguinhos e Luiz
Gonzaga. Aí eu gostei. Falei: Tá bom. Ele continuou: Se você quiser fazer assim
eu te levo para uma gravadora que estou assumindo como diretor artístico. Eu
concordei: Tá legal. Ele me colocou em um hotel. Eu fiz quatorze músicas. Na
outra semana mostrei para ele. Com todas fizemos um disco que arrebentou no
Brasil inteiro. Foi esse o conselho que Michael me deu. Conselho e luz.
Um dos
maiores clássicos da Música Popular Brasileira é a música “De volta pro
aconchego”. Dominguinhos participou do processo de criação. Como foi a história
dessa canção?
A história dessa canção é o
seguinte. Foi quando eu fiz com Dominguinhos uma música: “Isso aqui está bom
demais”. Aí na sequência a gente estava fazendo a melodia de “De volta pro
aconchego”. Ele fez e perguntou o que eu achava. Disse: Ótimo. Na realidade na
época era um baião. Em um dia que estávamos gravando com Dominguinhos e Chico
Buarque, a noite quando Dominguinhos estava comendo disse: Nando estou com
saudade de casa, briguei com a mulher. Falei: Eita, vou fazer essa música
agora. Aquela melodia que você tinha me dado. Eu comecei a escrever no
guardanapo, essa música na realidade é a história dele. Aí eu fiz: “Estou de
volta pro aconchego/ trazendo na mala da sanfona muita saudade/ querendo da
mulher um sorriso sincero e um abraço”. Essa música saiu em três minutos. A
gente mostrou para Elba, virou um clássico. Eu recebi um comunicado agora que
as dez músicas populares brasileiras, tem essa da gente e tem outra também que
a gente fez: “Gostoso demais”. Que é gratificante demais.
Em
decorrência do aniversário de Dominguinhos, você fez uma postagem no facebook e
o chamou de pai. Qual a importância de Dominguinhos para Nando Cordel?
Domiguinhos, eu chamo ele de pai.
Passei quase trinta anos compondo com ele, viajando, fazendo música. Era um
cara que não tinha inveja, não tinha ciúme, não tinha ganancia. Só tinha
humildade e queria ver as pessoas felizes. Foi considerado um mestre por todo o
mundo. Eu o chamava de pai pelo seguinte, ele me ligava toda semana para saber
como eu estava. O cara ligar só para saber como você está! Isso é mais que um
pai. Luiz Gonzaga dizia: “Nando, Dominguinhos só falta te colocar no colo, te
amar. Eu já disse a ele: Nunca deixe Nando. E ele respondeu: E eu sou doido
rapaz”. Ele tinha uma relação muito íntima com a gente. Tinha esse carinho
comigo. Luiz Gonzaga só me ligava dia treze de dezembro que é o meu
aniversário e o dele também. Mas
Dominguinhos ligava toda semana. Certa vez ele passou por Recife, ia tocar em
Caruaru. E me perguntou: “Tá fazendo o quê?” Eu respondi que nada. Ele então
disse: “Vamos comigo”. Aí eu fui. Contei a ele que tinha comprado uma casa e
tinha que fazer bastante show para pagar, porque o negócio estava apertadinho.
Ele disse: “Não se preocupe, se faltar dinheiro você me liga”. Aí eu chorei que
só. Como não chamar de pai uma pessoa como essa.
O frevo é a
música pernambucana reconhecida em todo o nosso planeta. Como é o seu
relacionamento com esse ritmo?
Eu fiz muito frevo na minha vida,
mas alguns não lancei. Eu fiz um para mim que tocou bastante. Depois fiz um
para a Xuxa. Aliás, fiz para mim, mas quem pegou foi a Xuxa. Estourou aqui no Recife,
na Bahia, em tudo que é canto e depois no mundo todo. Que é: “Hoje é dia de
folia/ meu coração que conquistar você/ e cair na brincadeira”. Depois eu fiz
outro, mas não sou muito chegado a fazer frevo. Até porque o frevo não tem um
respaldo de tocar no Brasil. Por sinal toca mal em Pernambuco. Na terra do
frevo as rádios não tocam infelizmente. Toca brega que só a peste. Sertanejo,
mas a música da gente Pernambuco não toca, que crueldade. Um dia eu estava em
uma comunidade e as pessoas me falando de frevo e eu fiz um: “O frevo tá no
sangue do povo/ No morro, na rua/ O frevo deixa a gente louco/ Leve, afoito/ Atiça
a gente se amar/ Não dá pra segurar/ Não dá pra segurar/ Quero mais/ Quero mais/
Pra me derreter...” Essa música é um clássico do carnaval de Pernambuco. Eu
gravei, depois a Elba gravou. Toca hoje em todos os lugares. A minha relação
com o frevo é isso. Tenho até vontade de
fazer um disco de frevo, mas fico um pouquinho triste por não ter onde tocar.
Mas tenho uma relação boa com o frevo.
A banda que
te acompanha mundo afora é composta pelos teus filhos. Como foi que aconteceu
essa sintonia entre vocês para trabalhar juntos?
Eu tinha uma banda que era
considerada a melhor do Recife, com os melhores músicos. Um belo dia meus
filhos começaram a crescer e querer mesada. Eu disse: “Vocês vão ter que se
virar. Tem alí dois violões uma bateria, aprendam que vocês vão tocar comigo e
com outras pessoas”. Eles começaram a aprender, eu falei para eles que tinha
pintado uma turnê nos Estados Unidos. Se
tiver tocando legal vocês já vão viajar comigo, vinte dias lá. Aí os cabras
endoidaram, era de manhã, de tarde e de noite, nem dormiam para aprender. Em
cinco meses já sabiam as vinte músicas que eu iria tocar lá. Foi a primeira vez
que foram tocar comigo. Meios capengas, mas eles não são bestas são uns cabras
espertos levaram as coisas gravadas no Samp. Quando não sabiam o Samp tocava no
lugar deles. Foi um sucesso muito grande. E a partir daí eles ficaram. Mas
agora de um tempo pra cá estão me deixando. Todos virando artistas. Fazendo
grupos, tem a Tribo Cordel. Agora vou ter que voltar para os músicos. Vou
arrumar um time de músicos para tocar comigo.
Você tem um
compromisso com a paz. Como aconteceu esse engajamento com essa causa tão
nobre?
A minha mãe sempre falava comigo:
“Meu filho a vida não existe sem paz, sem amor, sem você escutar os outros. Ela
pode até ser aparentemente boa. Esnobar na sociedade, ser uma pessoa legal, ter
um carro legal. Mas no fundo, no fundo você vai dormir sozinho. Vai dormir você
com você. Você tem que se cuidar e só quem cura é a tranquilidade a paz
interior ”. Ela sempre me dizia isso e
eu incorporei para mim. Disse ainda:
“Onde você for leve um pouquinho disso”. No primeiro disco que fiz sucesso
comecei a falar pela paz. Aí fui convidado pelo mundo todo para participar de
movimentos. Fiz um CD, o primeiro disco que fiz todo mundo sabe: “Abre a porta
e deixe entrar/ Essa paz que faz o amor imenso...”. Essa virou um hino. Depois eu fiz a música: “A
paz no mundo começa em mim/ Se eu tenho amor com certeza sou feliz/ Se eu faço
o bem a meu irmão/ Tenho a grandeza dentro do meu coração...”. Essa música se
espalhou muito mais rápido do que as outras. É cantada em todas as escolas do
mundo. Agora, recentemente eu recebi um vídeo da Irlanda, é o maior sucesso nas
escolas lá. O sucesso é na parte social onde querem fazer um mundo melhor.
Então daí eu comecei a falar de paz, olhar pela paz, fiz mantra. Um trabalho
muito grande. Isso seria o que? Uma gratidão. Um agradecimento a Papai do Céu
por me dar tanta coisa boa. Sou a favor da paz e acho que o mundo só é melhor
com a paz.
Sobre o seu
livro “O cordel da vida”, agora que ele foi lançado, vem atendendo as suas
expectativas?
Muito mais. Ele ainda não está
lançado oficialmente, lancei na internet. Mas aí a gente vai começar a lançar
nas livrarias e fazer aquela tarde de autógrafos. Já saiu a primeira edição
praticamente esgotada. É um livro que não tem pretensão nenhuma, é um livro de
cordel, sempre ligado as pessoas a melhorar de vida. Um convite a meditar na
paz. Eu ia fazer umas poesias uns cordéis mais sofisticados para fazer as
pessoas pensar. Minha mulher e meus filhos disseram: “Pai faça simples”. É um
livro muito simples, um cordel muito simples. Mas que tem um objetivo muito
nobre que é de fazer mudar um pouquinho a vida. Se algum texto daquele calhar
com você com sua vida, você pode dá uma mudada.
Então de uma forma muito bacana as coisas que eu faço tem uma repercussão
muito grande.
Você foi o
grande homenageado da VI Flimar, Festa Literária de Marechal Deodoro. Como foi
essa tua emoção?
Aquela homenagem em Alagoas foi
fantástica. Eu, Nando Cordel ser homenageado por uma cidade inteira. Eu sou um
simples compositor, mas achei um negócio tão grande, tão grande. A cidade
inteira com fotografias minhas. Uma coisa tão forte, as crianças cantando.
Procissão no meio da rua cantado minhas músicas. No meio da rua eu comecei a
chorar. Passei três dias lá e chorava. Tanta gente bacana para ser homenageada
e os caras me escolheram dessa forma. Eu achei muito encantador. Eu nunca vi um
negócio desses na minha vida e eu fiquei emocionado demais, a minha vida
inteira. Marcou profundamente a minha vida.
Quando eu
falo o nome de Amelinha o que a primeira coisa que te vem à cabeça?
Uma das melhores cantoras do
mundo.





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