domingo, 6 de março de 2016

FREDERICO MENDES

Uma vida que se faz na fotografia

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

O cara que melhor fotografou Nara Leão. Como se isso não bastasse foi correspondente em todo o planeta onde tivesse uma guerra, terremoto ou mesmo um desfile de modas lá estava ele e sua inseparável câmera fotográfica. Frederico Mendes vai além do fotografar, ele retrata a vida.


Quando a fotografia chegou no garoto que tanto gostou do Filme “Hair”?

Eu desenho desde os dois anos. Cheguei a ter aulas de pintura até os dez anos. Sempre achei que seria pintor, ilustrador ou cartunista, além de escritor, poeta e jornalista. Estudei Jornalismo na PUC Rio e além disso escrevia e pintava diariamente. Mas aos 22 anos comecei uma fossa profunda com o término do meu primeiro amor com a primeira namorada e não conseguia mas pintar ou escrever. Foi um bloqueio criativo, não conseguia criar nada além da minha dor crescente. Tinha uma certa grana ganha em um estágio burocrático em uma Fundação fazendo boletins informativos e estava na dúvida entre ir para a Europa ser um mochileiro andarilho ou comprar uma motocicleta e sair à espera de uma curva que me levasse para longe daquele insensato mundo em que vivia. Mas em uma tarde de começo de verão passei por uma loja de fotografia no centro do Rio e vi uma câmera na vitrine. Juro que ela piscou seu único olho, digo, sua lente para mim. Foi amor à primeira vista, comprei aquela Pentax usada no ato. Mas como não sabia nada de fotografia, pedi para o vendedor colocar o filme para mim e saí fotografando o que achava interessante pela cidade. As fotos saíram todas escuras mas comecei a fotografar, revelar e aprender com meus erros e acertos. Com o passar dos anos, por causa daquela Pentax (e de outras câmeras Nikons, Leicas etc) já fui várias vezes a Europa, África, Asia, etc. Nunca comprei a tal motocicleta suicida, mas várias bicicletas. Ah… e também por causa dessas câmeras me casei quatro vezes — conheci todas as minhas mulheres fotografando. Aliás, devo ser uma pessoa bem desinteressante sem uma máquina pendurada no pescoço...

Como foi trabalhar na extinta e memorável revista “Manchete”?

Para um rapaz de 24 anos era o paraíso na Terra. Trabalhava ao lado de antigos ídolos como Walter Firmo, Claus Meyer, Sebastião Barbosa e Orlando Abrunhosa, o melhor fotógrafo de futebol do planeta — autor da famosa foto do Pelé socando o ar cercado de Tostão e Jairzinho na Copa de 1970. Pouco tempo depois fui enviado para a sucursal de Nova York e dali fui conhecer o resto do mundo, mas nunca para lugares onde queria ir, mas para onde uma guerra, um terremoto, um vulcão ou uma Olimpíada ou desfile de moda aconteciam. Saia de casa sem saber se iria voltar de noite ou em três, quatro semanas. Podia ir direto da redação para algum confim do universo onde algo acontecia.

O que mais lhe acrescentou sendo correspondente da “Manchete”, em Nova York e Paris?

Quando comecei na profissão nos anos 1970 em plena ditadura militar, fotografar no Brasil era bem perigoso: fui detido algumas vezes por estar fotografando em áreas chamadas de "segurança nacional" como estações de trens ou até na frente de bancos. Gosto de fotografar anônimos nas ruas e isso estava me limitando. Era cabeludo, barbudo e tinha cara de subversivo. Em Nova York podia fotografar livremente, sem censura e vigilância da polícia. Tive também a oportunidade de ver John Lennon tocar no seu último concerto no Madison Square Garden, Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel, todos meus ídolos musicais mas, acredite, um dos melhores shows que vi nessa época foi o do brasileiríssimo Sergio Mendes e sua ótima banda. Outra coisa: pude fotografar várias passeatas de protesto contra a Guerra do Vietnam e o (des)governo do então presidente Richard Nixon.

Falando em ser correspondente, nos conte de sua experiência em ser correspondente de guerra na África (Angola e Moçambique), no Oriente Médio (Líbano e israel) e na América Central (Nicarágua e El Salvador)? 

Quando era jovem achava que iria morrer levando um tiro em algumas das guerras em que estive. Com o passar dos anos (e com a vida mais estável que passei a ter) comecei a sentir medo. Tinha família, filho, e não podia ser tão egoísta de fazer algo perigoso só porque me dava prazer. Mas por sorte e proteção do meu anjo da guarda nunca fui ferido no meio de tantas batalhas, com exceção de um tiro que levei cobrindo uma passeata no Rio em 2013.  A minha câmera recebeu o impacto e como ela estava na minha cara atingiu o meu nariz e foi aquela sangueira toda. Aliás, eu e a câmera passamos bem e ela continua funcionando.

Você fotografou capas de discos para artistas conceituados como Roberto Carlos, James Taylor, Caetano Veloso, Raul Seixas, Zé Ramalho, Gal Costa, Martinho da Vila, Nara Leão, Amelinha, e Frank  Sinatra entre muitos outros. As capas de discos hoje tem o mesmo impacto daqueles tempos do vinil?

Na verdade, os discos não têm mais o impacto daqueles tempos nesta era de internet, mp3, piratarias e arte livre e gratuita. Mas fazer uma capa de LP era muito gostoso. Primeiro que as capas tinham 30 centímetros, enquanto o CD tem apenas 12 .Depois era gostoso ter a liberdade para criar a capa, coisa que a publicidade não lhe concedia.

Você foi um dos fotógrafos que melhor fotografou Nara Leão, a musa da bossa nova e de outras bossas, foi amigo da cantora de “A Banda”. O que mais você guardou no coração da doce musa?

A sua amizade e doçura. Ela era profundamente generosa com os amigos.  Quando sabia que eu estava triste pelo fim de algum casamento, ela me convidava para lanchar em sua casa e depois me perguntava: — O que você quer ouvir eu cantar?
A voz dela acabava com qualquer fossa...

Em relação ao artista plástico, qual tua maior realização na pintura de um quadro?

Quando as pessoas querem comprar a peça. Mas, como não gosto de me desfazer dos meus quadros, cobro caro para ver se o cliente desiste, apesar de certas vezes eu acabo topando:  ora, o artista vive da sua arte e como diz o velho bordão popular  “quem trabalha de graça é relógio" apesar de que, hoje em dia, relógios usam baterias que não são de graça.

No tocante a literatura, o que move o escritor Frederico Mendes?


Obras que me emocionam ou que me fazem pensar, obras que me fazem desejar ser uma pessoa mais digna, mais útil para sociedade e não um ser que só pensa em si mesmo. Gosto de Monteiro Lobato (meu primeiro mestre), Rosário Fusco (que conheci pessoalmente e me dava livros para ler quando eu tinha dez anos — nossas famílias eram amigas) e Emile Zola— depois de ler Germinal virei um ser de esquerda para sempre. Mas como aprendi em um velho exemplar da caretíssima revista americana Seleções do Readers Digest "todo jovem é um incendiário, mas ao envelhecer vira auxiliar voluntário do Corpo de Bombeiros". Pois é, ando apagando vários incêndios ultimamente, mas ainda toco fogo nas coisas de que não gosto...




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