Ela é Carioca
Por Cássio Cavalcante/ fotos:
internet
“Ela é carioca/ Ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar/ Nem ninguém tem carinho assim
para dar/ Eu vejo na luz dos seus olhos/ As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz/ Vejo o mesmo céu/ Vejo o mesmo mar...”
Parte da canção de Tom Jobim - Vinicius de Moraes
Veio para a Música Popular Brasileira com a disciplina e a
pontualidade que aprendeu com o balé. E na pauta de sua carreira a coerência de
ter que cantar a suas verdades. Com uma voz linda e cristalina Carol Saboya é
dona de uma simpatia que nos encanta. Seja aqui no Brasil ou fora dele é
respeitada como a formidável cantora que é. Ela é carioca e vê no carioca o jeito da
música que gosta de cantar.
Você convive com música
desde sempre, em casa, nas viagens com seu pai.
Participava das peças infantis que sua mãe escrevia. Com 15 anos você fez
vocal no disco do Sergio Mendes. Até que ponto tudo isso interferiu por você se
decidir por ser uma cantora?
Isso foi muito natural. Não foi uma coisa forçada. As
oportunidades foram aparecendo sem eu ter aquele compromisso de querer ser
cantora. É logico que as gravações e tudo eu levava muito a sério. Mas não era
ainda: “Quando eu crescer eu quero ser cantora”. Eu sabia que ia ser alguma
coisa ligada as artes. Eu fiz muito tempo Balé, teatro, esse era o ambiente
onde eu me sentia bem. As coisas foram mais ou menos aparecendo os caminhos foram
se abrindo. Aí eu fui para o lado do canto mesmo.
Você lançou dois discos
no Japão. Lançou também alguns nos Estados Unidos e está prestes a lançar mais
um. O que te move na tua carreira internacional?
Com o tempo esses meus últimos trabalhos, esse vai ser o meu
décimo segundo disco se eu não me engano. Eu fui vendo até por ter um exemplo
em casa o meu pai, com essa questão toda de produção independente e até sempre
fazer o que tinha vontade. Tive esse exemplo dentro de casa por muito tempo.
Depois que eu descobri que queria ser cantora, realmente focar nessa carreira.
Eu pensei, eu não sou compositora, até já fiz poucas coisas. Então eu tinha que
cantar a minha verdade. Sempre achar o que eu sinto vontade de cantar. Eu senti
depois de alguns discos, a música aqui no Brasil o espaço dela foi se
afunilando. Foram para outros caminhos, a grande mídia. E todas as vezes que eu
tinha oportunidade de mostrar o meu trabalho fora daqui sempre fui muito bem
recebida, muitos elogios. Então é como já dizia o Milton Nascimento, a gente
vai onde o povo está e quer a gente. Eu sinto muito carinho e principalmente
muito respeito lá fora pela nossa música. Que eu acho que é o que a gente faz
de melhor na vida, no Brasil. A gente já chega com um cartão de visita maravilhoso.
Por esta vontade de só cantar músicas de qualidade eu fui buscando um espaço, e
esse espaço foi aparecendo muito no exterior.

E no Brasil como tua
música é recebida?
Eu nunca sonhei ser uma pop star, nem foi o intuito. Não
escolhi ser famosa. Escolhi cantar e obviamente que a gente que está no palco,
que é artista, precisa do feed back
do público. Das pessoas que ouvem a gente. Que isso aí é o que move realmente.
Eu sinto que a internet ajudou muito porque abriu outros canais para isso. E as
pessoas procuram e acham. Porque quando você procura acha. Eu também quando
quero vou procurando e acho o que quero ouvir. No Brasil eu tenho sim um
público. Mas é como te falei não quero ser uma pop star. Até pela situação que
a gente vive. O que toca nas rádios nas tv’s abertas infelizmente não é o que eu
canto. Uma pena. Mas continuo fazendo o que eu sinto que essa coerência que
fazem os meus vinte anos de carreira. Até digo que quando comecei o meu
padrinho foi o Aldir Blanc. Teve uma apresentação do disco que ele fez nos 50
anos dele. Eu cantei nesse disco uma música chamada “Carta de Pedra”, uma
música linda dele. Teve uma apresentação no Canecão e eu cantei, ninguém sabia
quem eu era. Depois ficaram muito em cima de mim. Que eu era uma menina nova
que gostava de cantar coisas difíceis. Eu tinha feito faculdade de música, e
nessa época, nesse primeiro momento, muitas gravadoras me procuraram. Mas
queriam que eu cantasse o que eles achavam que eu deveria fazer. Seria o sucesso,
o que ia vender. Mas eu em nenhum momento fiquei preocupada com isso. Ainda
mais o primeiro disco. Eu queria escolher músicas que iam encaixar bem com a
minha voz. O que eu estava com vontade de passar para as pessoas.
O Rio de Janeiro foi
cenário de inspiração para muitas canções que se tornaram clássicos de nossa
MPB. Para você o que é ser carioca?
Ser carioca... pois é. O Rio de Janeiro infelizmente está
muito maltratado. Mas é de uma beleza natural que é incrível. Quando você pára para
olhar vê essas montanhas, vê o mar. E carioca tem assim uma coisa no jeito de
falar, de andar, que eu acho que é bem única. Eu sou carioca e obviamente eu
tenho tudo isso. Eu acho que tem um charme quando a gente vai passar a nossa
música, a Bossa Nova. Que nasceu aqui no Rio. Inclusive foi um estilo meio que
me escolheu. Não fui eu: “Ah! Vou cantar Bossa Nova”, foi por conta dos discos
do Japão. Os japoneses vinheram aqui e queriam uma cantora carioca, jovem, para
cantar um repertório de Bossa Nova, assim bem clássico. Aí fiz dois discos.
Então acho que o carioca essa coisa, essa malevolência que tem haver com o
estilo que eu gosto de cantar.
Você estudou dança. Em
algum momento a dança interfere no teu cantar?
Sim, acho que sim. Porque além da postura de palco que é
importante. O tipo de música que eu canto não é Ivete Sangalo, que dança, que
pula. É difícil, você tem que ter uma postura, mas não é uma coisa fria. Tem uma
coisa com as mãos, mas que seja o mais natural possível. Eu acho que a dança
foi muito importante nesse quesito, com postura e pontualidade, eu sou muito
pontual. E isso tem haver com o balé. O balé tem essa coisa de rígido. Eu sou
muito disciplinada. Quando entro em uma coisa entro de cabeça. Faço na hora,
entrego no tempo. Sou bem ligada nisso.
Há mais de 20 anos você
ensina música, qual tua maior realização como professora?
É muito bom dar aulas. Eu tenho também uma profissão de
professora de canto. Uma profissão que também me escolheu. Eu nunca pensei em
ensinar, não sabia que ia ter o dom. Às vezes você é um ótimo cantor mas não
consegue passar, ter a didática, é diferente. E eu amo dar aulas, amo meus
alunos, acho que eles são as nossas cobaias queridas. Porque a gente, no meu
caso, no início de minha carreira de cantora eu experimentava com os alunos
para ver como iria funcionar, no fundo comigo também. Hoje com mais experiência,
além da aula básica eu passo muito conhecimento, experiência mesmo. Do que eu
já passei e passo. Eu vejo os olhinhos deles brilhando. Felizes em estarem
ouvindo aqui, porque está acrescentando. É um prazer que eu amo. Tenho muito
aluno adolescente, vinte e poucos anos, assim. Que é uma praia que eu gosto
muito, me identifico muito.
Tom Jobim foi um dos
maiores músicos de nosso mundo. Como surgiu o projeto do teu CD, “Janelas Abertas”,
ao lado de Nelson Faria? O que você quer nos contar deste seu disco?
“Janelas Abertas” foi um presente do Almir Chediak para a
gente. Porque o Almir era muito amigo do meu pai, até eu fiz um programa com o
Nelson “Um café lá em casa”, que a gente fala sobre esse assunto. A gente
estava fazendo um duo, mas sem compromisso de disco, um duo para fazer show.
Fomos fazer um show em Mauá, na serra do Rio, divisa com São Paulo e Minas. O
Almir estava lá por acaso era um feriado, ele foi assistiu ao show e falou: “Poxa
por que a gente não faz um disco? Vocês dois. Pegar o lado “B” do Tom Jobim.
Vamos entrar em estúdio amanhã”. Aquelas coisas, o Almir era muito assim, de
projetos e ideias. E a gente falou: “Vambora”. Foi um disco assim, chegar no estúdio
e tocar. Foi exatamente assim que aconteceu.
A gente ia para o estúdio sem saber o que ia ser o arranjo e tal. Fizemos uma
pesquisa de repertório com o Almir. Foi um disco que a gente fez muito show.
Viajamos muito, nos divertimos muito. É um disco que muita gente adora, como
você, e que fala até hoje. Foi, eu acho, que de 1999 se não me engano.

Nelson Faria e Carol Saboya.
Como é a tua relação
musical com o teu pai, o músico Antonio Adolfo?
É muito boa. A gente
já teve altos e baixos (risos). É uma arte, no meu caso, lidar com o meu pai
como profissional. E separar, não tem como muito separar, é difícil. Mas a
gente já trabalhou junto algumas vezes. Eu acho que a relação foi só
melhorando. A gente se dá muito bem como pai e filha, há um respeito muito
grande como profissional também. Tanto que já repeti várias parcerias com ele.
Esse eu acho que é o terceiro disco que ele produz. Para mim é uma honra tê-lo
como produtor e arranjador. Entrou no estúdio a gente esquece a trelação de pai
e filha. Eu obedeço ao que ele fala, não retruco. Claro que eu tenho opiniões e
tudo. Sem aquela coisa da intimidade de pai e filha. Ele é bastante exigente,
Cássio, ainda mais com a filha. Aí ele fica mais exigente ainda para que seja o
melhor disco da vida. (risos). Então acho que ele tem isso e eu também. Foi aprendendo.
O primeiro disco que a gente fez juntos foi bem por acaso. Havíamos ensaiado
essa parceria de disco junto e produção. E aí foi um show que a gente fez na Universidade
de Miami. Foi gravado a gente ouviu e gostou. Não foi assim: “Vamos fazer um
disco juntos”. A partir daí a gente fez mais um.

Carol Saboya e seu pai, o talentoso músico Antônio Adolfo.
O novo disco.