sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

EDNARDO

Quarenta anos de canções que nos embalaram pela vida a fora

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: Internet

Ele veio das dunas brancas da onde queria ficar, enquanto engomou a calça contou uma história bem curtinha fácil de contar que todos escutamos ate hoje. E voou com todo um país nas asas de um pavão misterioso. Porque Ednardo quando canta só sorrisos lhe respondem.


Com tantos sucessos em sua carreira como “Pavão Misterioso”, “Artigo 26”, “Enquanto Engoma a calça”, “Terral”, “Beira Mar”, “Carneiro”, entre outros, como você analisa hoje a cena musical no Brasil?

É delicado debruçar sobre assunto tão abrangente, acompanho na medida do possível, mas quase não vejo tv ou escuto rádios destas normais, da chamada grande mídia, a não ser quando tem algo muito interessante. Tenho no entanto acessado bastante a internet e algumas coisas bacanas que vejo e escuto me dão ideia que a cena musical do Brasil continua com pujança, é forçoso reconhecer no entanto, que não está encenada a vertente independente que é pra onde migraram vários artistas já conhecidos do grande público e de onde vem também promissores nomes. Constata-se também que gravadoras masters com reduzidos casts, só estão interessadas em manter em contrato o que é de fácil e raso consumo, salvo honrosas exceções.

Qual a contribuição do Pessoal do Ceará, para a sua música, a cearense e a de nosso país? 

Acredito que é grande, muitos parceiros, assim igual a outros maravilhosos amigos do Piauí, de São Paulo, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, entre tantos outros. No caso do Pessoal do Ceará, além da inquestionável contribuição ao nosso cancioneiro brasileiro, vejo que outros grupos despontam com força própria e demonstram que nossas músicas também fazem parte de suas formações.

No primeiro programa que você fez a nível nacional o cenário que te esperava era composto por elementos como um jumentinho, um gibão, chapéu de cangaceiro e espingarda. O Brasil hoje já tem a real dimensão artística do nordestino?

Claro que atualmente nossa geração é vista em dimensão mais ampla, este equívoco inicial se dava por visão estereotipada de como nos viam naqueles tempos, mas cada artista foi aos poucos demonstrando que não era bem assim, neste caso que você cita, me recusei a usar os paramentos para espanto da produção do programa de tv, eles achavam que eu estaria à vontade, só que não. Pois desde nossos primeiros discos a abrangência musical e estética estava muito além de um entendimento acanhado.
Qual foi a importância de Augusto Pontes para o movimento da cena musical no Ceará?

Fundamental, não só para nossa geração e parceiros, e também para outros gerações e áreas diferentes da música. Augusto Pontes uma das cabeças inteligentes e inquietas, representava de forma simbólica e também efetiva, esta efervescência criativa em várias áreas artísticas, música, letras, poesia, teatro, publicidade, etc. Uma espécie de mentor e fio condutor entre todos, encontramos a pessoa dele em quase todos os movimentos importantes até 2009.

Teatro José de Alencar, Fortaleza, 1979, acontece a Massafeira. O que foi esse evento em termos de som, imagem, movimento e gente?

Foi e é maravilhoso, porque continuam seus resultados na maioria dos que participaram e em outras gerações que atualmente nela se espelham. Esta nova forma de compreender a arte brasileira gerou outros movimentos coletivos de arte em vários outros Estados. Atualmente no Ceará, posso citar o movimento Manifesta (em Fortaleza) e o Festival União Ibiapaba (na serra de Ibiapaba), como oriundos diretos da Massafeira de 1979 e 1980. Mas tem muitos outros.

Como surgiu a ideia do livro sobre a Massafeira que você organizou? Foi muito difícil materializar esse documento importante da cena cultural do Ceará?

Foi a natural necessidade de se pensar em registrar o livro sobre a Massafeira depois de 30 anos de sua realização com a importância que tem em descentralizar do eixo sudeste para o nordeste, eventos de amostragens artísticas, empolgou a muitos. Tanto os que participaram, quanto as novas gerações são entusiastas desta ideia. Foram 2 anos e 6 meses, juntando todo material iconográfico, fotos, desenhos, depoimentos, textos, filmes, tivemos que resgatar até o disco duplo da Massafeira que sequer a gravadora o tinha mais e haviam destruído a matriz. 

Os festivais de música foram importantes na formação da música popular brasileira. Por que acabaram, por que esse formato não sobreviveu ao tempo?
Penso que festivais daquela forma competitiva conhecida, com júri, torcida, etc., sofreu natural desgaste, pois ao escolher alguns vencedores e rejeitarem outros participantes, quebrava a magia coletiva do fazer artístico. Atualmente, outros formatos têm sido mais interessantes. Mas não devemos esquecer que de uma forma ou de outra sempre haverá filtragens.

Você já fez algumas trilhas sonoras para o cinema, como a do Filme Luzia Homem. Gosta desse seguimento no trabalho musical?

Gosto de cinema, foi o que de alguma forma me entusiasmou ainda mais para música, porque ali está tudo junto: som e imagem, interpretação no trabalho artístico, a história e seu registro a criatividade de seus diretores, toda uma equipe trabalhando em conjunto. É quando percebo que a música tem também papel fundamental, ressalta todo o filme e é ressaltada por sua inclusão e se eterniza.

Cearense, saiu do seu estado, voltou a morar lá. Algumas canções suas são referências para o cenário do Ceará, como “Terral”, que foi feita em São Paulo movido pela saudade, morando no Rio de Janeiro já a muito tempo, você se sente próximo de sua terra?

Vou lá sempre que tenho oportunidade, em shows ou para movimentar projetos. Tenho ligação atávica com minha terra, uma emoção especial, o sentimento de pertença, reescutar o sotaque e suas musicalidades, rever amigos e fazer outros novos, observar o crescimento da cidade, a culinária característica, são diversas formas de reintegração ao meu local de origem, a qual prezo muito e respeito sempre e quero honrar como filho deste lugar.

Quarenta anos de carreira. Nessa jornada o que mais te marcou?

Tudo marca de alguma forma, pessoalmente não divido em décadas minha existência e música, estou caminhando, cada fase e momento tem sua importância e significado, existe no entanto a tendência quase geral em entender o relógio do planeta, por décadas ou séculos. Mas no meu pensar existe a vida, o criador, a arte, e todas outras formas de existências, e para mim, tudo é atemporal.

O que o teu fã vai encontrar no DVD que você lançou: 40 anos de canção?
 
São dois DVDs, o primeiro, contêm na íntegra o show que realizei em Fortaleza com 30 músicas representativas de diversas fases destes 40 anos. Com uma banda de 10 excelentes músicos, chamei também alguns convidados especiais para cantarmos juntos algumas músicas: Rodger Rogério, Teti, Chico César, Mona Gadelha, Carol Oliveira. O segundo, é um documentário que aborda principalmente o início artístico e a década de 70, fartamente ilustrado com entrevistas depoimentos e fotos de várias épocas e músicas. Também espero que descubram outras coisas e fatos que não percebi ao tecer estes comentários.
Abraços à todos.



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