quarta-feira, 13 de abril de 2016

ANTONIO ADOLFO

A Música conduzindo uma vida

Por Cássio Cavalcante/ fotos: internet

Depois de recusar o violino que lhe foi imposto, chegou ao piano naturalmente, achando o primeiro mestre sozinho. Daí foi tomado de paixão pelo instrumento e se tornou músico, arranjador, produtor e educador.  Indicado para o Grammy Latino por dois anos consecutivos, com oito livros lançados no Brasil e dois no exterior é o compositor de clássicos da MPB como Sá Marina, Juliana, Teletema e BR-3, direto da Flórida, Estados Unidos, o genial Antonio Adolfo, como afirmou Nara Leão, conversou com a gente via Skype e nos contou um pouco de sua jornada.


Filho de uma violinista da orquestra do Teatro Municipal. Sua avó que conduziu sua mãe no violino também o iniciou no violino. Como você chegou ao piano que acredito que hoje e sempre é o seu forte?

É o seguinte o violino veio de fora para dentro. Apesar de minha mãe ser violinista eu nunca procurei o violino para estudar. Foi uma coisa que foi sugerida a mim e ao meu irmão mais velho, o João, que hoje ele é economista. Então como não foi uma coisa partida de mim eu tinha uma certa rejeição. Tanto é que eu preferia ficar jogando bola na rua do que perder aquela horinha que eu tinha para jogar e ter que estudar violino. Eu me revoltei até que desistiram. Isso foi dos sete aos nove anos. Eu morava na Tijuca, em uma rua bem tranquila que não tinha saída a gente jogava, eu curtia muito isso aí com os amigos e tudo mais, brincava, uma fase muito boa. A Tijuca era muito tranquila, essa rua ficava perto da fabrica da Brahma, me lembro até hoje. Muitos anos depois eu passei lá naquele mesmo lugar havia mudado muito mas como a vida também muda. Aos quatorze, mais ou menos quinze anos eu comecei a tocar sozinho nas brechas, porque minha irmã estudava piano clássico, quando ela deixava o piano vazio eu ficava tocando de ouvido algumas músicas. A própria minha avó vendo que eu devia ter algum talento, claro que eu tinha, pelo menos eu tinha herdado esse talento para a música. Ela soube que eu tinha descoberto um professor que dava aula de ouvido. Eu queria tocar mas não queria clássico. Engraçado é que minha mãe era violinista clássica minha irmã também. Eu gostava de tocar... Sei lá, estava começando aquela época da Bossa Nova, eu gostava de tocar aqueles sambas canções, músicas internacionais. Eu mesmo achei esse professor, e aí minha avó me levou para essa aula de música. Ela sempre incentivou a música em casa. Ela tem um papel bem importante em minha vida porque realmente a música foi a coisa que me trouxe mais alegria. Claro que a família também, mas estou falando em termos profissionais. Apesar de eu ter estudado Direito depois. Mas a música foi o que realmente eu senti que seria minha profissão. Essa passagem se deu assim espontânea só que eu tive essas aulas com o Amyrton Vallim, e comecei a tocar com os colegas de colégio. E depois resolvi estudar clássico também, aí sim, mas para pegar a parte técnica, porque o estudo que fazia anteriormente a gente chamava de estudo de piano de ouvido que tinha certas limitações. Eu era aluno de Amyrton Vallim que foi pianista da Rádio Nacional, há muitos anos atrás tocava em um programa chamado “A Hora do Pato”, um programa de calouros. Essa fase foi isso, eu passei para o clássico para conhecer o piano mais a fundo. Aí fui ouvindo muitos discos de Bossa Nova, Jazz essa coisa toda. E realmente fiquei no piano e formei logo um grupo na escola chamado Samba a Cinco. E depois como estava naquela fase dos trios eu também entrei nessa onda também. Eu quis formar um trio e formei o trio 3D. Este nome foi dado pelo Carlos Lyra, que foi minha estreia profissional na peça “Pobre Menina Rica”.

Samba a Cinco, que tocava nos colégios. 3D, sua estreia com Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Como aconteceram esses conjuntos musicais tão importantes no seu início?

O Trio 3D foi formado para tocar na peça “Pobre Menina Rica”, que foi exatamente a minha estreia profissional. E você sabe, só por curiosidade que essa montagem da peça foi a segunda. A primeira havia sido com Nara Leão. Aí colocaram no Teatro Maison de France, que é no centro do Rio. Como fazia muito sucesso acabou a temporada e eles resolveram fazer outra montagem, e a Nara não pode fazer porque já estava fazendo aquele trabalho no Teatro Opinião, se eu não me engano. Aí o Carlos Lyra fez essa montagem que tinha o Ary Toledo, Vera Gertel que era mulher dele na época, atriz.

Pianista, arranjador, produtor e educador. Como administra em você tantos em um só ser?

Olha, para mim uma coisa complementa a outra. A questão do educador eu vou te falar porque pintou. Talvez tenha pintado porque sempre tive muita admiração pelos meus mestres. Do professor de piano de ouvido até os outros. Eu tive vários professores de piano. Wilma Graça, Werther Politano e o Heitor Alimonda. Aí eu comecei a estudar composição, fui estudar na França com Nadia Boulanger. Eu sempre tive muita admiração por todos eles. Quando eu voltei tive aulas com o Guerra Peixe, para você ver, eu sempre procurei aprender. Com essas didáticas desses professores que eu tive acho que foi uma experiência muita positiva. Tanto é que aquilo me passou uma coisa boa sobre ensinar. Eu comecei a ensinar quando voltei dessa temporada na Europa. Comecei a dar aulas em casa, mas paralelamente a isso eu sempre consegui coordenar essa parte de músico e arranjador. O piano é um instrumento que é o primeiro passo para ser um arranjador. Porque ele te dá vários elementos, que já não é o caso do violino que você trabalha com a melodia somente. Na percussão, na bateria você trabalha com o ritmo. No piano você trabalha com os três elementos básicos da música, melodia, harmonia e ritmo. Você vê que geralmente os arranjadores mesmo que não sejam pianistas eles tocam piano. Os grandes arranjadores brasileiros como o Eumir Deodato que também foi meu mestre. O Luiz Eça, tem vários que foram pianistas e arranjadores. Porque isso realmente ajuda muito. Eu comecei a fazer arranjo bem cedo. Naquela fase que se tinha orquestras. Arranjo eu aprendi muito assim. Teve a dica que o Eumir Deodato me passou no início, como passou para outras pessoas também, ele era um cara que gostava de dar aulas. Eu tive com ele há pouco tempo aqui. Ele mora aqui em Nova York já há anos. A gente conversou sobre isso. Ele tinha uma turma lá com Dori Caymmi, Menescal, vários músicos que tinham aula com ele. Então que isso tudo foi se harmonizando naturalmente a função de pianista com arranjador. Geralmente quando a gente tocava tinha que ter um arranjador e o pianista era o que dava mais dicas. Aí comecei a colocar isso no papel, comecei a gravar em uma fase muito boa onde todas as gravadoras tinham a sua orquestra. Fazia arranjo para muita gente nessa época inicial em 1965, 1966, 1967 por aí. Fiz para o Taiguara, para várias pessoas. Como produtor eu comecei produzindo os meus discos. Eu tinha o conjunto Brazuca, e também os discos que eu fazia solo. E aí acho que isso foi também um pequeno passo, porque o cara que toca piano, que é arranjador, é compositor. Eu já estava aí fazendo minhas músicas, umas conhecidas outras não. Você começa ter uma noção de tudo no estúdio. Começa a conversar com o técnico de som, começa a prestar atenção no trabalho dele. De repente a concepção do disco, você começa a prestar atenção nisso também. O produtor reúne principalmente essa parte. Como eu juntava também a parte de arranjador e de músico era completo. Eu tinha tudo para fazer produção de disco também.  Aí comecei. Tinha uma parte da produção que eu não gostava muito, a parte mais tecnológica vamos dizer assim. A parte de mixagem, nunca fui muito... Até hoje eu não participo tanto, agora tem a masterização. Antes era só gravação e mixagem.  Entender de microfone, eu nunca entendi muito sobre isso. Eu conversava com os técnicos, até hoje tenho alguma noção sobre isso, mas a parte que eu curtia mais da produção era a musical. Desde a escolha do repertório a concepção do disco. A concepção do disco realmente é uma coisa que eu sempre curti muito. Até hoje eu curto fazer isso, produzo os meus discos e os de outras pessoas.

Com sua opinião gostaria que me tirasse uma grande dúvida. Nossa música a querida MPB, é mais valorizada fora do que no próprio Brasil?

Olha, isso eu posso dizer que a música brasileira sempre foi valorizada fora do Brasil. Até pelo seu grau de sofisticação e de inspiração. A combinação da nossa música reúne Europa, África, Jazz. Sempre agradou aqui fora. O jazz também em certa época foi a música pop internacional. Hoje em dia é um reduto e ficou restrito a um gueto. Uma fatia do mercado bem pequena. Mas a música do Brasil hoje é sempre muito respeitada, mas ela saiu daquela fase pop que teve na Bossa Nova.  Mas também o pop daquela época abraçava o Jazz, isso no início dos anos de 1960. Mas a música brasileira hoje em dia é muito admirada ela brilha sempre nos festivais, shows de artistas brasileiros que fazem aqui fora. Seja Estados Unidos, Europa, Ásia, seja aonde for. Entendeu? O pessoal adora a música brasileira, o ritmo a harmonia. Aquela combinação de ritmo, harmonia e melodia. A letra sempre foi um obstáculo, isso é uma pena. Porque como é feito música popular é essencialmente a canção. E o que é a canção? É música e letra. Como tem esse elemento letra e apesar do pessoal adorar o som da língua portuguesa, sempre comentam a língua portuguesa tem o som das palavras. Mas eles não entendem o que as letras dizem. Poetas como o Vinicius de Moraes, o Chico Buarque, tantos outros, Aldir Blanc, eles ficam assim em segundo plano. Tem uns que fazem música e letra como Djavan, Gilberto Gil, Caetano. Mas esses entram pela Música não entram pelas letras. O pessoal daqui não entende mesmo, você teria de cantar em inglês. O brasileiro tem dificuldade de falar inglês.

Você teve sua passagem pelo memorável Beco das Garrafas. Um dos templos da Bossa Nova. Tocou com Leny Andrade. Como foi sua vivência no beco?

A minha estreia na verdade foi com o Carlos Lyra e a Leny Andrade. Porque é o seguinte a gente fazia a peça nove horas da noite no teatro de Bolso na Praça General Osório em Ipanema no Rio. E a meia noite a gente tocava com Leny Andrade, fazia o show. Era Leny Andrade, o Raul de Souza que na época era Raulzinho do trombone e o meu Trio 3D. Eu acho que fui um privilegiado ter começado profissionalmente tocando com Vinicius de Moraes e Carlos Lyra na peça “Pobre Menina Rica”, e ao mesmo tempo que eu fazia isso em pleno verão carioca, uma época maravilhosa que eu tinha 17 anos. Inclusive para tocar a noite no Beco das Garrafas que era no Bottle’s Bar, onde a gente tocava eu tinha que ter a autorização do Juizado de menor, foi uma complicação isso. Até 21 anos você não podia tocar nesses lugares. Passei uns quatro anos driblando um pouco isso. Mas o privilégio de ter tocado com a Leny Andrade foi uma coisa lindíssima. Muito forte e muito importante. Que contribui muito para a minha carreira deslanchar como pianista de trios e tudo mais. Quando eu estive com ela há uns dois anos em um show que ela fez em Nova York, ela soube que eu estava lá e fez uma homenagem que fiquei emocionado. É uma pessoa queridíssima, além de ser uma super cantora, tá em forma ainda, cada vez mais é um fenômeno.

Não tem como conversar com um artista de sua geração e não falar na ditadura. Como o golpe de 1964 refletiu em você e em sua carreira?

Eu nunca fui a favor daquele golpe. Qualquer pessoa que tenha bom senso não poderia. Vou te falar uma coisa, naquela época eu com 17 anos era muito garoto ainda. Da época de 1964 o que eu me lembro muito era que o baterista nosso não pode gravar. A gente estava gravando um disco, o primeiro disco do 3D foi gravado exatamente em abril de 1964. Olha que fase horrível para gente gravar um disco. Eu me lembro que o baterista que era o Nelson Serra ele tinha 18 anos e estava servindo no exército e tinha que ficar de plantão no Forte de Copacabana. Realmente aquilo era um pesadelo para a gente, além da própria revolução. Mas eu não participei muito desses movimentos todos. Sempre fui contra mas participei mesmo dos Festivais de música. Onde se abordava muito a questão desse golpe. As próprias letras das músicas da época. Edu Lobo fazia muito com Guarnieri, Rui Guerra. E eu estava sempre junto desse pessoal. A Nara fez aquela peça, Opinião. Uma produção incrível, era fantástico. Muito bem feito pelo Vianinha. O Vianinha dirigiu um show da gente também, que eu fiz com a Brazuca, era um protesto que também se misturava com o protesto da juventude que vinha da Europa. Que tinha em Paris e tudo mais. A própria postura de rock pop que tinha na época dos Beatles, era uma coisa que misturava tudo isso.

“Juliana”, “BR-3”, “Sá Marina”, “Teletema”. Sucessos seus que se transformaram em clássicos de nossa música. Hoje é mais difícil colocar um sucesso de MPB em nossas rádios?

Eu acho que há um movimento muito contrário a isso. Há uma barreira, um muro muito grande, que está impedindo esse tipo de música. O próprio Ivan Lins, estava contando para mim a pouco tempo, um ano, dois anos, que ele estava em uma reunião para colocar música em novela, o pessoal falou: Ah! Acabou aquele negócio de MPB, Nana Caymmi, Ivan Lins, tom Jobim. Acabou tudo isso agora é sertanejo, é não sei mais o que, é axé. Quiseram fazer uma música mais popular hoje em dia. Mas invés deles levar música ao povo, a cultura ao povo, por exemplo o Roquete Pinto que foi uma pessoa importantíssima na divulgação no rádio do Brasil. Ele sempre falava que era obrigação das emissoras, vamos dizer assim, levar cultura ao povo. Só que apresenta este tipo de música que tem qualidade, sofisticação, essa coisa bonita pura que tem a música brasileira, são alguns programas na rádio Mec, são pouquíssimas, a rádio cultura. Isso já vem acontecendo há muito tempo, tanto é que comecei a fazer de forma independente. Chamava-se produção independente na época. Hoje em dia eu prefiro chamar de auto produção. Desde aquela época já estava havendo uma tendência a comercializar demais o mercado. Mas ainda tinha muita coisa, continuava Elis Regina, Caetano, Gil. Mas você vê que mesmo esses ícones da música brasileira que estão vivos, uns poucos aí que andam fazendo show, Fazem muito sucesso, eles tem muito público. Você vê quando o Chico Buarque está fazendo uma temporada, o Caetano e o Gil, as casas estão sempre lotadas, mas não é o público que cultua essas novelas. Estão realmente em um nível muito baixo.  Não tem uma série boa como teve “Pantanal”. Eu me lembro quando a gente estava no Maracanãzinho, primeiro foi “Juliana” em 1969, Depois BR-3 em 1970 esses grandes sucessos que eu tive com Tibério Gaspar, tocava no Brasil inteiro. Eu me lembro que na final era uma coisa, o Maracanãzinho parecia que ia cair de tanta gente e gritos e berros. Gente vaiando outras aplaudindo. E aí no dia seguinte estava na capa das principais revistas. Saia na rua todo mundo pedia autografo, era uma coisa assim incrível. Era muito forte e assistido por gente de todas as classes. É possível se fazer, se a mídia prestigiar. Eu me lembro que no festival internacional da canção que juntava artista brasileiro depois tinha a fase internacional, tudo isso acontecia em duas semanas. Tinha os festivais da Record que passava no Brasil inteiro e entrava em todos os lares.  É possível só depende de uma coisa muito simples de a mídia querer.

Antonio Adolfo com o amigo e cantor Ivan Lins.

Nos compositores as parcerias são comuns e importantes. Roberto e Erasmo. Tom e Vinicius. Uma das mais produtivas foi Antônio Adolfo e Tibério Gaspar. Como foi que essa dupla aconteceu?

Teve um disco que eu fiz contratado pela gravadora Copacabana, os caras queriam que eu fizesse um disco bem no estilo de Sérgio Mendes. Aí eu pensei na Beth Carvalho, que eu já conhecia, acho que foi o Tibério que me apresentou. Parece que isso foi em 1966. O Eduardo Conde que era cantor e depois virou ator. Nessa época eu, Tibério, a Beth a gente fez um grupo de estudantes, compositores. Me lembro que eu era um dos poucos que era musico profissional. Tinha Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Danilo Caymmi, conjuntos vocais, Edmundo Souto. Foi uma época que o Brasil ficou um pouco órfão, pois o pessoal da Bossa Nova veio todo aqui para o Estados Unidos e outros para o México. Também o Carlos Lyra a Leny Andrade. Então a gente começou a juntar esse grupo de compositores, a gente começou a criar o que veio a se chamar de Toada Moderna. Eu sei que foi um grupo muito forte, teve também um movimento chamado “Música Nossa”. Me lembro que Roberto Menescal estava no Rio de Janeiro, e começou a aderir a essas reuniões também. Aí foi crescendo, Marcos Valle voltando dos Estados Unidos, ele estava trabalhando com o Sérgio Mendes. Aí começou aquela onda da Toada Moderna, que tem “Sá Marina”, tem o “Viola Enluarada”, o “Andança”. Tudo feito por esse pessoal. O “Andança” é do Danilo Caymmi, Paulinho Tapajós e Edmundo Souto. O “Viola Enluarada” de Marcos e Paulo Sérgio Valle. “Sá Marina”, eu e Tibério Gaspar. Essa fase não é muito citada na história da música popular brasileira, mas foi muito importante. Eu fiz parte desse grupo. A Beth Carvalho cantou “Andança” no festival. Cada um conhecia um que ia trazendo para o grupo.  Reuniões a noite na casa de um, na casa de outro. Eu me lembro que a casa da Beth era um dos pontos de encontro. Tinha o apartamento do pessoal que tenha um grupo chamado “O Terço”. Tinha a casa do Tibério. Quando as toadas estouraram, a primeira que fez mais sucesso foi “Sá Marina”, que foi gravada pelo Simonal que era um cara que estava com todo o acesso à mídia. O Simonal fez um grande sucesso naquela época, ele com a Elis Regina Também. Depois ele fez uma coisa mais para o lado da “Jovem Guarda”, que veio se chamar “pilantragem”. Antes dele “Sá Marina”, teve duas gravações que não fizeram muito sucesso mais no estilo da toada. Mas ele deu mais um molho à música, um arranjo belíssimo de Cesar Camargo Mariano.

Antonio Adolfo com o parceiro Tibério Gaspar.

Como surgiu a música “Sá Marina”, letra e música que formam essa canção que é uma das mais belas da MPB?

Surgiu primeira a música, tá, a letra veio depois. A música surgiu porque nós estávamos ensaiando, esse novo estilo que havia surgido na música brasileira que seria a Toada Moderna. O baião com uma harmônia um pouco mais sofisticada. Até então baião e todas eram músicas que só tocavam no interior do Brasil com Luiz Gonzaga e etc. Começamos a preparar as músicas deste tipo. “Sá Marina”, na minha parceria com o Tibério Gaspar foi a quinta ou sexta música que foi feita. As outras também foram gravadas por nomes como Maysa e grupos vocais. Veio como uma toada. O Tibério, inspirado, pois ele morou uma época em Sapucaia, interior do estado do Rio de Janeiro. E tinha uma personagem lá que se chamava Brasilina. Ele inspirado nessa figura que veio e que chegou. A letra ele apresentou a ideia e nós fizemos mais ou menos juntos, eu ajudei a ele um pouco. Mas a letra é dele e eu gostei. Eu achei que ficou bonita: “Roda pela a vida afora/ põe pra fora essa alegria/”, - isso é bonito -  “Deixando versos na partida/ e só cantigas pra se cantar/ naquela tarde de domingo fez o povo inteiro chorar”... A Ivete Sangalo gravou e ela termina diferente: “naquela tarde de domingo fez o povo inteiro cantar”. Mas chorar, pode ser chorar de emoção. A toada é um tipo de lamento.

Simonal, Elís Regina, Ivete Sangalo, gravaram uma das mais belas canções que fez “Sá Marina”. Carol Saboya gravou lindamente. Para você é algo especial ouvir Carol Saboya cantando essa canção?

É algo especial sim. Porque a Carol cresceu ouvindo música em casa. Ela canta muito. E fora do Brasil é como a Joyce Moreno e muito mais bem recebida do que no nosso país. Para você ter uma ideia ela tem dois discos lançados no Japão que fizeram bastante sucesso. Aqui no Estados Unidos ela vai lançar o segundo ou terceiro disco. Que a gente produziu em dezembro. Fizemos a parte de estúdio, gravamos e o disco dela está prontinho para sair. Acho que vai sair em maio. E ela aqui é super bem recebida, as rádios tocam as músicas dela. Eu fico vendo assim aí no Brasil quando sai uma crítica, as vezes sai uma resenha pequeninha dizendo nada demais. As pessoas parecem que não tem esse enfoque que você mostrou aí, que realmente ela tem uma voz lindíssima. Ela cantando é afinadíssima. Ela tem uma coerência na carreira, não anda atrás de fazer sucesso fácil. A Carol assim como a Mariza Monte estudou ópera, canto lírico. A Mariza Monte inclusive é minha prima. Você estudar canto lírico, e tem musicalidade e a cultura para a música popular uma coisa não atrapalha a outra. E tem mais, ela estudou dança também,

Antonio Adolfo com a filha a cantora Carol Saboya.

Você tem duas escolas de músicas uma no Leblon outra na Barra no Rio de Janeiro. Por que também ser mestre? Abraçar a causa do ensinar música?

Eu sempre tive muita admiração pelos meus mestres. Quando eu voltei da França, morei lá um ano e meio, levei minha mulher Ana Luiza, ficamos morando em Paris. Quando voltamos para o Brasil, ela já estava esperando nossa filha Carol que é cantora também. Engraçado, foi bem nessa época. Aí comecei a dar aulas em casa. Estava em um momento de volta, chegando ao Brasil, e eu estava empolgado com negócio de ensino de música e tudo. Foi um sucesso tinha dia que eu dava aula das nove da manhã as nove da noite. Era sempre prazeroso e eu continuei dando aula durante uns três, quatro anos em casa. Aí começou a acontecer o seguinte: começaram a vir as viagens, os shows, as gravações. Foi uma época que eu gravei muito. Gravei aquele disco do Chico Buarque, “Sinal Fechado”, gravei alguns do Caetano. Aí foram vários. Com a Nara Leão, eu gravei nessa época também um disco chamado “Meu primeiro Amor”. Fiz alguns arranjos, toquei. Comecei a gravar com uma multidão do pessoal da MPB. As pessoas começaram a ligar para mim perguntando se eu conhecia quem dava aulas de bateria, contrabaixo, de canto. Eu lembro que indiquei muitos, como o Pascoal Meirelles, baterista. Aí eu pensei assim: Vamos alugar uma sala. A nossa casa está sendo invadida pelos os alunos que foram sempre bem recebidos.  A gente achou melhor fazer um esquema fora de casa. Alugamos uma salinha pequena lá no Leblon. Invés de usar todo o horário com aula de piano, eu dividia com bateria, lembro que o Chico Batera deu aula lá. Contrabaixo com o Omar Cavalheiro. A gente começou a chamar outras pessoas para dar aulas ali. Começou assim. Formou-se um grupinho onde eu não interferia na didática, cada um tinha a sua própria. E em seis meses, um ano a gente teve que alugar uma outra sala. Zuza Homem de Melo fala sempre assim para mim: O Antonio Adolfo, tudo que ele faz dá certo.

Antonio Adolfo começando como educador musical.

Para finalizar vou te pedir para fazer uma viagem no tempo, de mais ou menos uns 30 anos, para 1982:

Às oito horas da manhã tocava o telefone.
- João? É Nara. Tou saindo.
Nara descia, andava alguns metros pela calçadão de Copacabana em direção ao ponto de ônibus e esperava o primeiro “frescão” passar rumo a Barra da Tijuca. Em Ipanema a cena era igual, João Donato subia a Montenegro – hoje Vinicius de Moraes – em direção a praia, parava na esquina e esperava um sinal de Nara Leão para entrar no ônibus.  A história do novo disco de Nara da época começava assim. Com dois gênios da música popular brasileira indo gravar de ônibus.
No estúdio da Polygram se encontravam com Antonio Adolfo que assinou a produção do disco junto com Nara. Na volta a musa pegava carona com o produtor em um fusca marrom. Ele sugeria ir pela Avenida Niemeyer ao invés de ir pelo túnel, que era aceito de imediato. Vinham conversando e ele a deixava em casa.
No release do disco a cantora comenta sobre o amigo:

“Eu pretendo ainda fazer outros discos com Antonio Adolfo. Eu me sinto muito identificada com ele. Antonio Adolfo é um profissional de múltiplas qualidades, um produtor ao mesmo tempo firme e suave, um arranjador super versátil, que tanto pode fazer o arranjo de “Maravilha Curativa” quando o do samba de Elton Medeiros, com a mesma competência e ainda está na batalha do disco independente... Quando se é muito bom músico, é maluco. E Antonio Adolfo é genial e não é maluco. Com todas essas qualidades, ele passa como se fosse uma pessoa normal”.

Você que gravou com Nara os discos “Meu primeiro Amor”, “Meus amigos são um barato” e “Quero que vá tudo para o inferno”.
Nos conte da rotina de gravar o disco “Nasci Para Bailar”.

Antonio Adolfo e os discos de Nara Leão em que o musico trabalhou.

Era delicioso trabalhar com Nara, porque ela sempre era muito dedicada. Se entregava totalmente a coisa. Não é a toa que se projetou mesmo com aquela voz pequenininha que tinha. Mas que tinha muita expressão. Tinha uma antena assim, tipo a Beth Carvalho teve para o samba. A Nara Leão tinha uma antena geral. Nesse projeto do “Nasci para Bailar” por exemplo, ela estava apaixonada pelas músicas do João Donato, estava voltando de uma viagem que tinha feito a Cuba com um grupo grande. E adorava os compositores cubanos, conheceu o Silvio Rodrigues. Contava que os cubanos adoravam dançar, e  a noite nos bares ia dançar também. E ficava dançando a noite inteira. Ela voltou com aquele som na cabeça. Com a sonoridade daí ter se ligado na música do Donato “Nasci para Bailar” que foi feita nessa mesma época com o Paulo André Barata. O João Donato sempre teve uma conexão muito grande com a música cubana. Aí eu sugeri a ela gravar o Sidney Miller, que foi contemporâneo dela no início. Gravou do Sidney a música “Pede passagem”, e tem também aquela do Caetano “Luz do Sol”. Ela estava muito ligada musicalmente ao Kledir Ramil. As vezes ela me ligava a meia noite, “Antonio aquela música assim...”. E começava a dar ideias. E a gente ficava duas horas falando no telefone. Tipo o João Gilberto que fazia isso. Ela me contava tudo nas gravações que via umas estrelinhas: “Antonio agora eu estou vendo”. Aí a gente parava um pouco a gravação, deixava ela se recuperar. 





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