domingo, 24 de abril de 2016

TETÊ ESPÍNDOLA

Um canto que ecoa do Mato Grosso para toda a terra Brasilis

Por Cássio Cavalcante

Com 11 anos recebeu a visita de Elis Regina em sua casa no Mato Grosso. Elis havia ganho recentemente o primeiro Festival de Música Popular Brasileira da Record com a canção “Arrastão”. Ao ver seu ídolo tão de perto lhe veio uma certeza e uma decisão, iria ser cantora. Hoje, dona de uma voz única e inconfundível, Tetê Espíndola comemora 40 anos de uma carreira séria e valorosa.

Foto: internet

Como foram os seus primeiros contatos com a música?

Através da minha mãe Alba que cantava muito bem, dos meus tios trigêmeos que tocavam piano clássico e de trios paraguaios que faziam serenatas chamados pelo meu pai Francisco Espindola.

Você já com 14 anos ganhou um festival no Mato Grosso. Ter ganho o festival da Globo com a música “Escrito nas estrelas”, foi um divisor de aguas em sua carreira?

Na verdade, foi o primeiro festival que participei e ganhei o prêmio de melhor interprete, ter ganhado aquele “Festivais dos Festivais” me projetou nacionalmente pois uma mídia daquela o artista só tem mesmo quando ganha um festival com uma música que entrou para a memória musical das pessoas até hoje canto em todos os shows.

“Tetê e o Lírio Selvagem”, como você analisa este disco em sua carreira?

Um LP marcante, pois, nós (eu, Alzira, Geraldo e Celito) fomos os primeiros daquela geração a trazer o nome do Mato Grosso que na época ainda não era dividido) para a mídia de São Paulo, cantando a natureza do pantanal, da chapada, aquele vocal de irmãos era uma grande novidade, e aquela capa (pinturas de João Sebastião da Costa, cuiabano), chamou muito atenção, isso tudo era vanguarda para a época.

Qual a importância de seu encontro com Arrigo Barnabé para a música que você faz?

Na época que nos conhecemos fazíamos parte da vanguarda paulista mas nós dois tínhamos chegados do interior. Ele me surpreendeu com aquele som dodecafônico atonal... E para mim na época foi um desafio cantar. Mas depois que começamos a compor juntos sentimos que tínhamos em comum um lado “sertanejo lisérgico” que nos encanta até hoje.

Como e quando começou a tua sintonia com o instrumento craviola?

Toco e componho na craviola tem amis de quatro décadas. Tudo começou quando Geraldo Espindola ganhou o instrumento e eu me apaixonei e comecei a tocar e ser enfeitiçada por aquelas cordas agudas e a oitava que ela tem começaram a me influenciar no jeito de cantar.

A nossa música indígena tem o lugar que merece na Música popular Brasileira?

Essa linguagem e esse ritmo é a nossa raiz mais profunda ainda bem que temos artistas como Marlui Miranda, o Grupo Mawaca, que estão sempre pesquisando e colocando na roda musical essa música linda dos índios que precisa ser muito mais valorizada. A cultura indígena como um todo. Né?

Sendo você muito ligada ao meio ambiente até onde a natureza influencia na música que produz?

O som dos pássaros, o som do vento nas arvores, o som dos grilos e do coaxar dos sapos, me inspiram como emissões a ser cantadas e improvisadas. Adoro a paisagem sonora com suas texturas, timbres e ritmos.

O querido Projeto Pixinguinha foi importante em sua trajetória?

Sim foi através dele que eu e muitos artistas chegaram a cantar até no norte e nordeste desse imenso país. Sinto falta de projetos como esse.

Fotos: internet

Contando e Cantando os Festivais

Hoje no Recife existe um templo das memoráveis canções. O Teatro da Caixa Cultural. Um dia desses contemplava sem piscar o canto da diva Zizi Possi. De repente maravilhado ouvia a estonteante Wanderléa cantando a canção “Foi Assim”, há pouco tem me deparei com toda a magnitude do canto cortante de Tetê Espíndola. O espaço é intimista e aconchegante, a sensação é que estamos lado a lado com nossos ídolos, e nos pegamos na audácia de cantarmos junto a eles. Vida longa a este Olimpo que a Caixa proporciona ao povo de Pernambuco.       

Show "Tetê Espíndola Contando e Cantando os Festivais", no Teatro da Caixa Cultural Recife. (fotos: facebook/ Espíndola Tetê)

Uma viagem por uma carreira de 40 anos que até hoje só nos fez bem. Com escalas em sucessos na época de ouro de nossa querida Música Popular Brasileira, os Festivais. Tetê Espíndola nos proporciona um misto de lembranças, saudades e reflexão de como anda a nossa música em dias tão loucos como o que vivemos agora. Com a participação especial da voz correta e do violão sofisticado de Sérgio Espíndola que só acrescenta mais valor ao espetáculo. Conta ainda com o auxílio luxuoso, como sempre diz a queria Leda Nagle, dos músicos Du Moreira no baixo elétrico e teclados e Danilo Moraes na guitarra, bandolim e vocal.

            Afinadíssima a cantora nos remete a tempos inesquecíveis pontuando com histórias interessantíssimas de si e da brilhante carreira.

            O repertório é impecável. Músicas como “Sabiá” e “Carolina”, se transformam em versões que dão propriedade a interprete que a transformam em novas músicas com sua marca. Em “Planeta Água”, nos remetes a um igarapé em qualquer uma das matas desse nosso Brasil, e nos obriga a dividir nossa audição com a voz de uma mulher e de pássaros vindos de uma mesma garganta, fantástico. Em “Sinal Fechado”, mais uma vez a presença mais que especial do violão e da voz de Sérgio Espíndola, e só nos resta ouvir quietinhos essa interpretação impecável de um de nossos mais estimados clássicos. E como derradeira “Escrito nas Estrelas”, essa que já faz parte da trilha sonora da vida de todos nós. Não tem com escutar essa canção e não lembrar de passagens de nossa vida tendo a mesma como fundo musical.

            Todo esse perfeito movimento da cena de nossa MPB è fechado com um Bis da famosa história de um triângulo amoroso que termina em tragédia com José, João e Juliana em um “Domingo no Parque”, que uma vez em 1968 no III Festival da Música Popular Brasileira encantou a tudo e a todos na voz de Gilberto Gil.

            Por tudo isso nos vem uma certeza e uma dúvida. A primeira em relação a ter consciência de ter visto um nos melhores espetáculos no ano, ou mesmo da década. E segunda nos vem a inquietante pergunta, a interprete terá guardado em sua garganta um pássaro do matão de Mato Grosso de canto maravilho, ou serão vários em uma só voz!

Discografia da artista: "Tetê e o Lírio selvagem" (1978), "Piraretâ" (1980), "Pássaros na Garganta" (1982), "Escrito nas Estrelas" (1985), "Gaiola" (1986), "Ouvir - Birds" (1991), "Só Tetê" (1994), "Canção do Amor" (1995), "Anahi, com Alzira Espíndola" (1998), "Vozvoixvoice" (2002), "Fiandeiras do pantanal, com Raquel Naveira" (2002), "O que virou - Canções de jerry espíndola e Marcello pettengill" (2003), "Espíndola Canta" (2003/ 2004), "Zencinema" (2005), "Babelyes" (2006), eVApor AR" (2007).




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