Em qualquer
lugar do mundo o jornalista e o escritor sempre juntos
Por Cássio
Cavalcante/ Fotos: internet
Jornalismo e literatura. Toda a competência e seriedade de Edney
Silvestre seja no jornalismo que faz ou na literatura que escreve.
Para você o que é ser
jornalista?
No Brasil, quando bem exercido, com isenção e responsabilidade, o jornalismo é a fonte de informação que pode nos ajudar a chegar mais próximo
de uma democracia plena.
Na sua pessoa o
jornalista e o escritor caminham juntos, ou há um limite entre os dois
seguimentos?
Estive há pouco em Pernambuco, entre a capital e o agreste, gravando
parte de um Globo Repórter. Vi e conheci
pessoas, casos e lugares extraordinários. Imediatamente me ocorreu a trama para
um conto, situado ali, na boca do sertão. O que me leva a crer que o meu
trabalho jornalístico alimenta – e muito – o meu trabalho de escritor.
Com suas experiências
como roteirista e diretor o que a sétima arte faz por você?
Vejo o cinema como extraordinária ferramenta para expandir horizontes e
ideias. Quando criança e adolescente, em minha cidade natal, Valença, no Estado
do Rio, via filmes japoneses, espanhóis, italianos, franceses, além dos
onipresentes e competentíssimos produtos do cinema americano. Aprendi muito
sobre o mundo. Política, história, com os filmes. Ainda aprendo, como foi o
caso do recente húngaro “O filho de Saul”.
Transformar ideias e tramas em imagens é um fator disciplinador para a
organização criativa.
Com importantes prêmios
como o Jabuti, o prêmio São Paulo de Literatura. Notáveis livros lançados como “Se eu fechar
os olhos agora”, “Vidas provisórias”, “Boa Noite a todos”. Com livro traduzido
na Inglaterra, Alemanha, Servia, Holanda, França entre outros países. O que
você deseja como escritor que ainda lhe falta?
Este ano lanço meu primeiro livro de contos, “Welcome to Copacabana & Outras Histórias”. Levei três anos trabalhando nele. A Editora
Record está em negociações para fazer lançamento numa grande livraria de um
shopping do Recife. Enquanto isso
trabalho na tradução de uma peça inglesa sobre Oscar Wilde, a ser produzida por
Susan Mace, outra francesa, que Ulysses Cruz pretende dirigir. Estou escrevendo
o roteiro de um longa-metragem formado por vários curtas. Pesquiso o período do
pós-guerra para o romance que estou alinhavando. E sigo batalhando para
produzir minha peça, “Boa noite a todos”. Como vê, há sempre muita coisa nova
para fazer, muitos caminhos a trilhar.
Com coberturas feitas ao
longo de toda a história recente no mundo. Ataques terrorista que horrorizaram
o planeta, devastação no Iraque. Toda essa gama de informações como te
influência na tua jornada de jornalista?
Em “Welcome do Copacabana” essas experiências ecoam em vários contos.
Organizei os 21 contos deste meu novo livro em 3 partes: “No Rio”, “Além do
Rio” e “De volta ao Rio”. Tanto nas histórias da primeira parte, situadas em
diversos bairros do Rio de Janeiro, quanto na segunda, minhas andanças se
refletem. Em “Além do Rio”, por exemplo, há tramas passadas no Iraque e Jordânia,
em Nova York, numa fazenda de criação de tigres no Texas e em vários outros
locais do mundo que conheci fazendo meu trabalho jornalístico. Cidades e países
onde estive apenas como turista, porém, como a Turquia, Praga, Barcelona, não
aparecem no livro novo. Não sei porque.
Como é o seu
relacionamento com as personagens que você cria na ficção?
Seja ou não verdade a frase atribuída a Flaubert, “Madame Bovary c’est
moi”/ ”Eu sou Madame Bovary”, eu me identifico com o escritor francês nesse
ponto. Sinto, depois de ter escrito, uma proximidade difícil de definir entre
“minhas” criaturas e eu mesmo. E não apenas com personagens como Paulo, Eduardo
e Ubiratan, do meu romance “Se eu fechar os olhos agora”, mas também com todos
os perversos, mesquinhos, corruptos de “A felicidade é fácil”, com a jovem
expatriada e o michê brasileiro de “Vidas provisórias”, ou com a mulher cuja
memória está se deteriorando no recente “Boa noite a todos”. Eu me sinto próximo até do robô destruidor do
conto “Zack”, do meu livro a sair em maio.
A Flip de Paraty no Rio
de Janeiro, A Fliporto de Olinda em Pernambuco e a Flimar de Marechal Deodoro
em Alagoas. São algumas das festas literárias que acontecem agora por todo o Brasil.
Como você descreve a importâncias desses eventos para o escritor brasileiro?
Participei duas vezes da Fliporto, como autor, assim como da Flip. A
festa literária de Paraty foi pioneira e abriu estradas para as outras,
inúmeras, que passaram a divulgar nossa literatura e dar força ao autor
brasileiro. Tenho um carinho especial pela Fliporto por, entre outras razões,
ter tido nela a oportunidade de encenar a primeira versão de minha peça, “Boa
noite a todos”, com a Christiane Torloni no papel de Maggie, dirigida pelo
ótimo José Possi. Sem esse tipo de incentivo trazido pelas festas e feiras
literárias, que popularizam as letras nacionais, não teríamos visto o
crescimento do interesse por nossos livros, como aconteceu nos últimos dez
anos. (Não posso comentar da Flimar, pois que lá nunca fui).
O jornal tradicional, no
papel, vem passando por tormentas já há algum tempo. Fechamentos de jornais
importantes na história da imprensa do Brasil, como o Última Hora, o Jornal do
Brasil. Demissões de muitos profissionais. Como você analisa o futuro desse
veículo de comunicação que já foi o número um?
A midia – tanto escrita
quanto radiofônica e televisiva – vem passando por transformações imensas,
profundas, algumas radicais, que começaram antes mesmo da chegada da internet e
do culto da futilidade e da celebridade, nos anos 1990. Se lembra do surgimento
dos tabloides, tão populares nos anos 1980? No caso dos jornais brasileiros,
além da metamorfose ocorrida no mundo inteiro, há também questões financeiras,
de má ou boa gestão de recursos e profissionais, alguns casos de vaidade
extrema e/ou incompetência extrema de seus proprietários e
administradores. Mas é sabido que, em
casos de acontecimentos que exigem informações confiáveis, o público busca os
meios de comunicação que informam com acuidade. Nesses momentos, como foi o
caso dos recentes atentados em Paris, ou os desmembramentos da Operação
Lavajato, quem quer saber o que realmente se passa, busca a chamada “midia tradicional”.
O novo livro de Edney Silvestre chega nas livrarias em junho pela editora Record.






Quando o jornalista e o escritor moram em um mesmo corpo. Admirável profissional!
ResponderExcluirParabéns pela escolha de Edney Silvestre para a entrevista.