domingo, 1 de maio de 2016

ANTONIO TORRES

Um Cavalheiro das Artes e das Letras

Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet

Nasceu em Junco, interior baiano, perto de Alagoinhas, a 200 km de Salvador. Na época era um lugar sem rádio e sem notícias das terras civilizadas, como cantou Luiz Gonzaga o rei do baião. Hoje, a cidade chama-se Sátiro Dias. Teve como pagamento dos primeiros direitos autorais, saborosos pratos de arroz doce na feira. Escrevia as cartas de amor para os namorados da cidade, e se colocava no lugar dos apaixonados para as missivas encantar mais nas promessas que continham. Foram suas primeiras ficções. Foi jornalista em Salvador, jornalista e publicitário em São Paulo, em Portugal, onde morou por três anos, e Rio de Janeiro. Da Academia Brasileira de Letras recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Foi condecorado pelo governo francês com a comenda: Cavalheiro das Artes e das Letras. O livro “Meu Querido Canibal”, de sua autoria é obra obrigatória no curso de literatura brasileira da Sorbonne, na França. Seu livro “Essa Terra” já vendeu mais de 150.000 exemplares em 15 idiomas. Um escritor com esta notável história de vida, é um dos homens mais simples e camarada que já conheci. Descubri a obra e o escritor ao mesmo tempo em um projeto de Raimundo Carrero: Escritores ao Vivo, aqui no Recife. Anos depois nos encontramos em Marechal Deodoro na Flimar e a sensação que me veio pela sua simpatia foi de rever um bom e generoso amigo. Agora um bate-papo com Antônio Torres.


O que ficou do menino que teve o abc apresentado por sua mãe e encantou-se pela palavra escrita ao ver o pequeno grande livro Seleta Escolar, lhe apresentado pelas mãos da professora Tereza, para o escritor Antônio Torres?

Ficou a memória de um tempo que era ao mesmo tempo de carências e de sonhos. Chegar à palavra escrita no ambiente rural e ágrafo onde nasci foi a minha descoberta do mundo. Porque antes de minha mãe me mostrar um abc e me dizer o nome das letras, e da professora Serafina me apresentar à poesia de Castro Alves, e a professora Tereza a prosa toda da Seleta Escolar, o que incluía José de Alencar, sim, era como se antes disso o mundo não existisse. Quem diria que, em pleno século XX, o aprendizado literário e o imaginário de um escritor brasileiro começassem a ser formado... na roça!  

O jovem jornalista de Salvador, que pegava o bonde para fazer suas entrevistas, resolveu trabalhar no jornal Ultima Hora, chegou em São Paulo e conseguiu. Como foi isso?

Cheguei a São Paulo em janeiro de 1961, ainda na faixa dos vinte anos, querendo trabalhar na Última Hora, cujo slogan empolgava: “Um jornal vibrante, uma arma do povo”. Bati na porta, pedi para falar com o editor de assuntos da cidade, que era um baiano chamado Carlos Coelho. Depois de uns dez minutos de conversa, ele se levantou, fazendo sinal para que eu o acompanhasse. Segui-o até um bar perto da Redação, onde ele pediu um conhaque, perguntando se eu também queria. Respondi-lhe que não. Foi minha sorte, como vim a perceber, ao final do encontro, quando ele disse: “Jurei para mim mesmo que nunca mais ia dar uma oportunidade aqui para um baiano. Porque o último que me apareceu, saiu com um fotógrafo para fazer uma reportagem e, no caminho, parou num botequim e nunca mais voltou. Mas já vi que você não é desse tipo”. Pronto, isso foi meio caminho andado. O resto veio com o trabalho mesmo. Mas olhe, faz algum tempo fizeram um livro sobre a UH paulista, e muitos depoimentos foram parecidos com o meu: chegar lá, bater na porta, entrar e ficar. Como aconteceu com Ignácio de Loyola Brandão, que é do interior de São Paulo (Araraquara), e José Roberto Guzzo, que é paulistano mesmo. Era um tempo de oportunidades. E o Brasil inteiro estava naquele jornal, competentemente comandado por dois pernambucanos: Josimar Moreira, na direção geral, e Múcio Borges da Fonseca, na chefia da Redação.  

Uma vez, no bairro em que morava no Rio, caiam pingos d’água do céu que deslizavam pelas folhas e encharcavam o solo que exalava cheiro de terra molhada. Chovia em Copacabana, sob sua contemplação tudo isso acabou em que romance de sua autoria?

“O cachorro e o lobo”, que é o “Essa terra” revisitado, vinte anos depois. O cheiro da terra com as primeiras pancadas de chuva me fez lembrar de dois versos de “Ne me quittes pas”, a bela canção do belga Jacques Brel: “Eu te oferecerei, pérolas de chuva, vindas de um país, onde nunca chove”. Aí me lembrei do Junco, e do personagem chamado Totonhim, que ao final do “Essa terra” vai embora para São Paulo. Corri para a máquina e bati lá: “Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo meu pai, que disso tudo tem um pouco”. Pronto. Fiz Totonhim voltar, por causa dos oitenta anos do pai. Dez anos depois, esse personagem iria me render outro romance, o “Pelo fundo da agulha”, assim completando a trilogia iniciada por “Essa terra”.

Sendo você um amante do jazz, fã da boa música, como esse bom gosto chega em seu processo de criação literária?

Minha ligação com a música começou na infância, por causa de uma vizinha que costumava espantar o medo da noite tocando numa viola os “rimances” do cordel, como o do Pavão Misterioso, “A chegada de Lampião ao inferno”. Depois foi o “jazz” que tocava nas missas solenes. Um dia chegou o Serviço de Alto Falante trazendo toda a Rádio Nacional para o sertão, com Luiz Gonzaga fazendo o povo chorar, quando ele cantava o “Assum preto”. Quando cheguei ao piano de Thelonious Monk e ao trompete de Miles Davis (almas-gêmeas do saxofonista Raimundo Carrero), já tinha a minha alma impregnada de música. Por isso duas palavras de um crítico norte-americano sobre o “Essa terra” me deixou nas nuvens: “Prosa melódica”. Isso me fez um bem...

Eu quero uma casa no campo/ Onde eu possa compor muitos rocks rurais/ E tenha somente a certeza/ Dos amigos do peito e nada mais/ Eu quero uma casa no campo/ Onde eu possa ficar do tamanho da paz/ E tenha somente a certeza/ Dos limites do corpo e nada mais...” (Música: Casa no Campo de Zé Rodrix) Essa música na voz de Elis Regina é uma das mais belas interpretações de nossa MPB. Foi mais ou menos isso que te aconteceu para você agora estar morando em uma bela casa de campo em Itaipava, conforme podemos ver no programa Álbum de Retratos de Marcelo Moutinho no Canal Brasil?

Das minhas janelas vejo árvores, pássaros, montanhas. Mas moro num condomínio com sessenta casas, numa área bem central de Itaipava, que é um distrito de Petrópolis. A diferença para Copacabana, onde eu morava, é que aqui há muito verde e mais silêncio – agora só me faltam o exílio e a astúcia, conforme a receita de escrever do doutor James Joyce. Ah, e não foi só em “Casa no Campo” que Elis Regina arrasou. Num país de belas cantoras, ela se revelou uma intérprete inigualável. Cantando, por exemplo, “Zambi”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, Elis parece entrar na pele, no coração e na alma de Zumbi dos Palmares. Eta baixinha arretada.   





3 comentários:

  1. Um escritor que canta sua terra, sua gente o seu viver.

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  2. Um escritor que canta sua terra, sua gente o seu viver.

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  3. Genial, um exemplo de vida.
    Parabéns Cássio Cavalcante, por mais uma entrevista iluminada.

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