Um
Cavalheiro das Artes e das Letras
Por Cássio Cavalcante/ Fotos: internet
Nasceu em Junco, interior baiano, perto de
Alagoinhas, a 200 km
de Salvador. Na época era um lugar sem rádio e sem notícias das terras
civilizadas, como cantou Luiz Gonzaga o rei do baião. Hoje, a cidade chama-se
Sátiro Dias. Teve como pagamento dos primeiros direitos autorais, saborosos
pratos de arroz doce na feira. Escrevia as cartas de amor para os namorados da
cidade, e se colocava no lugar dos apaixonados para as missivas encantar mais nas
promessas que continham. Foram suas primeiras ficções. Foi jornalista em
Salvador, jornalista e publicitário em São Paulo , em Portugal, onde morou por três anos,
e Rio de Janeiro. Da Academia Brasileira de Letras recebeu o prêmio Machado de
Assis pelo conjunto da obra. Foi condecorado pelo governo francês com a comenda:
Cavalheiro das Artes e das Letras. O livro “Meu Querido Canibal”, de sua
autoria é obra obrigatória no curso de literatura brasileira da Sorbonne, na
França. Seu livro “Essa Terra” já vendeu mais de 150.000 exemplares em 15
idiomas. Um escritor com esta notável história de vida, é um dos homens mais
simples e camarada que já conheci. Descubri a obra e o escritor ao mesmo tempo
em um projeto de Raimundo Carrero: Escritores ao Vivo, aqui no Recife. Anos
depois nos encontramos em
Marechal Deodoro na Flimar e a sensação que me veio pela sua
simpatia foi de rever um bom e generoso amigo. Agora um bate-papo com Antônio Torres.
O que ficou
do menino que teve o abc apresentado por sua mãe e encantou-se pela palavra
escrita ao ver o pequeno grande livro Seleta Escolar, lhe apresentado pelas
mãos da professora Tereza, para o escritor Antônio Torres?
Ficou a memória de um tempo que era ao mesmo
tempo de carências e de sonhos. Chegar à palavra escrita no ambiente rural e
ágrafo onde nasci foi a minha descoberta do mundo. Porque antes de minha mãe me
mostrar um abc e me dizer o nome das letras, e da professora Serafina me
apresentar à poesia de Castro Alves, e a professora Tereza a prosa toda da Seleta
Escolar, o que incluía José de Alencar, sim, era como se antes disso o mundo
não existisse. Quem diria que, em pleno século XX, o aprendizado literário e o
imaginário de um escritor brasileiro começassem a ser formado... na roça!
O jovem
jornalista de Salvador, que pegava o bonde para fazer suas entrevistas,
resolveu trabalhar no jornal Ultima Hora, chegou em São Paulo e conseguiu.
Como foi isso?
Cheguei a São Paulo em janeiro de 1961, ainda
na faixa dos vinte anos, querendo trabalhar na Última Hora, cujo slogan
empolgava: “Um jornal vibrante, uma arma do povo”. Bati na porta, pedi para
falar com o editor de assuntos da cidade, que era um baiano chamado Carlos
Coelho. Depois de uns dez minutos de conversa, ele se levantou, fazendo sinal
para que eu o acompanhasse. Segui-o até um bar perto da Redação, onde ele pediu
um conhaque, perguntando se eu também queria. Respondi-lhe que não. Foi minha
sorte, como vim a perceber, ao final do encontro, quando ele disse: “Jurei para
mim mesmo que nunca mais ia dar uma oportunidade aqui para um baiano. Porque o
último que me apareceu, saiu com um fotógrafo para fazer uma reportagem e, no
caminho, parou num botequim e nunca mais voltou. Mas já vi que você não é desse
tipo”. Pronto, isso foi meio caminho andado. O resto veio com o trabalho mesmo.
Mas olhe, faz algum tempo fizeram um livro sobre a UH paulista, e muitos
depoimentos foram parecidos com o meu: chegar lá, bater na porta, entrar e
ficar. Como aconteceu com Ignácio de Loyola Brandão, que é do interior de São
Paulo (Araraquara), e José Roberto Guzzo, que é paulistano mesmo. Era um tempo
de oportunidades. E o Brasil inteiro estava naquele jornal, competentemente
comandado por dois pernambucanos: Josimar Moreira, na direção geral, e Múcio
Borges da Fonseca, na chefia da Redação.
Uma vez, no
bairro em que morava no Rio, caiam pingos d’água do céu que deslizavam pelas
folhas e encharcavam o solo que exalava cheiro de terra molhada. Chovia em
Copacabana, sob sua contemplação tudo isso acabou em que romance de sua
autoria?
“O cachorro e o lobo”, que é o “Essa terra”
revisitado, vinte anos depois. O cheiro da terra com as primeiras pancadas de
chuva me fez lembrar de dois versos de “Ne me quittes pas”, a bela canção do
belga Jacques Brel: “Eu te oferecerei, pérolas de chuva, vindas de um país,
onde nunca chove”. Aí me lembrei do Junco, e do personagem chamado Totonhim,
que ao final do “Essa terra” vai embora para São Paulo. Corri para a máquina e
bati lá: “Eis-me de regresso a essa terra de filósofos e loucos, a começar pelo
meu pai, que disso tudo tem um pouco”. Pronto. Fiz Totonhim voltar, por causa
dos oitenta anos do pai. Dez anos depois, esse personagem iria me render outro
romance, o “Pelo fundo da agulha”, assim completando a trilogia iniciada por
“Essa terra”.
Sendo você
um amante do jazz, fã da boa música, como esse bom gosto chega em seu processo
de criação literária?
Minha ligação com a música começou na
infância, por causa de uma vizinha que costumava espantar o medo da noite
tocando numa viola os “rimances” do cordel, como o do Pavão Misterioso, “A
chegada de Lampião ao inferno”. Depois foi o “jazz” que tocava nas missas
solenes. Um dia chegou o Serviço de Alto Falante trazendo toda a Rádio Nacional
para o sertão, com Luiz Gonzaga fazendo o povo chorar, quando ele cantava o
“Assum preto”. Quando cheguei ao piano de Thelonious Monk e ao trompete de
Miles Davis (almas-gêmeas do saxofonista Raimundo Carrero), já tinha a minha
alma impregnada de música. Por isso duas palavras de um crítico norte-americano
sobre o “Essa terra” me deixou nas nuvens: “Prosa melódica”. Isso me fez um
bem...
“Eu quero uma casa no campo/ Onde eu possa
compor muitos rocks rurais/ E tenha somente a certeza/ Dos amigos do peito e
nada mais/ Eu quero uma casa no campo/
Onde eu possa ficar do tamanho da paz/ E tenha somente a certeza/ Dos limites
do corpo e nada mais...” (Música:
Casa no Campo de Zé Rodrix) Essa música na voz de Elis Regina é uma das mais
belas interpretações de nossa MPB. Foi mais ou menos isso que te aconteceu para
você agora estar morando em uma bela casa de campo em Itaipava, conforme
podemos ver no programa Álbum de Retratos de Marcelo Moutinho no Canal Brasil?
Das minhas janelas vejo árvores,
pássaros, montanhas. Mas moro num condomínio com sessenta casas, numa área bem
central de Itaipava, que é um distrito de Petrópolis. A diferença para
Copacabana, onde eu morava, é que aqui há muito verde e mais silêncio – agora
só me faltam o exílio e a astúcia, conforme a receita de escrever do doutor
James Joyce. Ah, e não foi só em “Casa no Campo” que Elis Regina arrasou. Num
país de belas cantoras, ela se revelou uma intérprete inigualável. Cantando,
por exemplo, “Zambi”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, Elis parece entrar na
pele, no coração e na alma de Zumbi dos Palmares. Eta baixinha arretada.




Um escritor que canta sua terra, sua gente o seu viver.
ResponderExcluirUm escritor que canta sua terra, sua gente o seu viver.
ResponderExcluirGenial, um exemplo de vida.
ResponderExcluirParabéns Cássio Cavalcante, por mais uma entrevista iluminada.